Eu gosto muito do estilo do DS4 e não tenho problemas nenhuns em o afirmar, até porque como se costuma dizer, “gostos não se discutem”. Pena que a Citroen não tenha seguido a receita do DS3 e dado ao DS4 uma frente nova. É que faróis, grelha e capot motor – curiosamente, as peças comuns com o C4 – não deixam que o carro visto de frente se destaque. Depois tudo é diferente, com uma lateral musculada e uma traseira interessante.
Outro destaque reside na maior altura ao solo, que a Citroen justifica com o facto de o carro ser uma mistura de conceitos: um híbrido de berlina, coupé, e SUV compacto 4x4. Normalmente, estes cozinhados (ou como dizia o meu avô, estas caldeiradas!) não dão grande resultado e no DS4 a verdade é que nada disto está evidente, exceção feita à já referida maior altura ao solo e ao estilo musculado da traseira, a lembrar um coupé.
Ora, assim sendo, temos um carro nada convencional que quer fugir ao conservadorismo do quase anónimo C4. Lá dentro as coisas também são um bocadinho diferentes, com preocupação em elevar o estatuto. Pormenores como os bancos com entalhes a fazer lembrar a bracelete de um relógio, a pele e os materiais mais nobres, além de um completo equipamento, fazem a diferença. Mas apenas nos níveis mais elevados de equipamento.
Mesmo assim, não ilude o facto de este interior ser o mesmo do C4, até mesmo no sistema que aumenta a superfície do para brisas para o tejadilho. O que fica por se perceber é porque raio os homens da Citroen fixaram os vidros traseiros. É verdade que o formato peculiar da porta quase impede que o vidro se mova e que o bico formado no local onde está o puxador da porta deixará muitas nódoas negras aos mais incautos, mas não haveria uma forma de arejar a traseira?
Olhando para a ficha técnica, fica a saber que o DS4 está mal alto 32 mm que o C4, o ponto H da anca do condutor está 15 mm mais alta que no C4 e que em termos de dimensões exteriores ficou tudo na mesma.
Igualmente na mesma a disposição mecânica em relação ao C4, mas com várias alterações. Primeiro na suspensão, que é agora mais dura para conferir um comportamento mais viril ao DS4. A direção também é diferente, pois o sistema elétrico do C4 dá lugar a uma unidade electro-hidraulica, com maior sensibilidade e mais rápida nas reações
Bem sentado, mais alto que o habitual, mas sem chegar ao exagero dos SUV, o DS4 surpreendeu-me com a boa capacidade de controlo dos movimentos da carroçaria, muito graças à suspensão e barras estabilizadoras mais duras, mas sem que o conforto seja duramente penalizado. Pelo menos nos pisos mais regulares ou nas zonas de baixa frequência. Isto porque no mau piso, a conversa é diferente.
A dureza dos amortecedores e molas limita o curso e é fácil ouvir a suspensão bater nos limitadores de curso, particularmente a traseira, composta por um normal eixo de torção. A velocidades mais elevadas e também em mau piso, é mesmo possível que as rodas deixem totalmente o contacto com o piso, dificultando de forma evidente o controlo dos movimentos da carroçaria e podendo em certas ocasiões surpreender os menos atentos.
Esta situação é a penalidade paga por fazer um carro mais alto que o bem composto C4 e com a tónica no dinamismo. Ter “sol na eira e chuva nio nabal” é coisa que ainda ninguém conseguiu… E, contas feitas, o DS4 fica longe de ser um desportivo, pelo que apenas a maior altura ao solo justifica esta opção da Citroen em endurecer amortecedores e engrossar barras estabilizadoras, suavizando as molas. Ah! e não esquecer que os modelos mais potente rolam com jantes de 19 polegadas e pneus de ultra baixo perfil, pelo que seria difícil ter mais conforto com todas estas condicionantes.
O motor 2.0 litros HDI com 160 CV portou-se à altura e confere ao DS4 uma valentia inesperada. Até parece que o DS4 é mesmo um desportivo. Não é, mas que anda depressa, lá isso é verdade. E não tenho queixas da caixa de velocidades nem sequer dos travões. Como os consumos não são elevados – cumpri uma média no ensaio de 7,1 l/100 km – e as performances são interessantes, o bloco HDI volta a dar uma boa demonstração de qualidade.
Veredicto
O DS4 não me desiludiu – até porque já o conhecia – mas a verdade é que depois do excelente trabalho realizado com o DS3, esperava mais. É verdade que estamos a falar de um carro de nicho e que para os racionais lá está o C4. Se você é daqueles que gosta de ter coisas diferentes dos outros, não se preocupa com quem viaja no banco de trás (onde o espaço no DS4 não abunda) e nem sequer valoriza o conforto, o Citroen DS4, apesar dos 36 mil euros que custa, é uma boa ideia. Se deseja algo mais prático, confortável e até dinâmico, terá de olhar para outro lado. Pelo estilo, eu até comprava o DS4, mas reconheço que comparando com o DS3, a Citroen parece ter perdido a mão para estes cozinhados…
José Manuel Costa