Nestas coisas do revivalismo, há sempre alguns que são puristas e acham uma heresia mexer na tradição, surgem outros que sendo puristas, aceitam a moderna interpretação, sendo intolerantes aos desvios e existem aqueles que estão se marimbando para a tradição. Por isso, quando uma marca como a Mini renasce, os primeiros clamam heresia, os segundos acham piada e os terceiros encolhem os ombros.
Impossibilitada de viver da monocultura de um modelo, a Mini esticou-se primeiro para uma forma mais pacifica, a Clubman e não veio dai mal ao Mundo. Mas quando surgiu o extremamente impuro Countryman, começaram os torcer de nariz. Felizmente para a Mini, o modelo é um enorme sucesso e pelo visto, são mais os que se estão marimbando para a tradição do que os puristas.
Vem esta longa conversa a propósito... do propósito que existe no Mini Coupé. A Mini reclama para este novo modelo uma ideia de modelo desportivo da gama, algo que o Mini nunca foi. Mas... faz mesmo sentido um Mini Coupé de dois lugares?!
Bom, nesta carroçaria, a Mini assume que os dois lugares do Mini normal não estão lá a fazer nada. E assim temos direito a um Mini de três volumes. Quer dizer, mais ou menos. Sabem qual foi a última vez que um Mini teve esta configuração? Em 1961 quando a marca lançou os luxuosos –e feios! - Riley Elf e o Wolseley Hornet!
Na realidade, o Mini Coupé é um dois volumes e meio com portão traseiro que dá acesso à maior mala alguma vez oferecida num Mini. Dizem os homens da marca inglesa que cabem dois sacos de golfe lá dentro. Já o tejadilho do Mini Coupé, segundo a marca, é semelhante a um boné de basebol virado ao contrario.
Ou seja, este é um carro que serve para levar o senhor Doutor ao campo de golfe, mas também os “yes man... tasse bem! Bro... yeah! Big is in the house!” Verdadeiro choque de culturas para seduzir o mercado masculino e que faz pensar se não andam algo baralhados na Mini...
Seja como for, andei com o Cooper SD e também com o John Cooper Works. Primeiro o turbodiesel. O bloco é o 2.0 litros turbodiesel que anda pelos BMW, aqui com 142 CV e 305 Nm e que, segundo a ficha técnica, permite chegar dos 0-100 km/h em 7,9 segundos, com emissões de 114 gr/km e consumos de 4,3 l/100 km. Naquilo que fui capaz de medir, o Mini Coupé Cooper SD fica-se pelos 8,4 segundos na aceleração e nos consumos, não fui capaz de fazer melhor que os 6,4 l/100, com uma média final acima de 6,5 litros.
Mantendo um acerto sempre mais para o duro, o Coupé mantém a mesma forma de estar do Mini normal, com o rolamento da carroçaria controlado, uma ótima aderência do eixo dianteiro e uma suspensão que permite perceber facilmente quando o Coupé vai perder a compostura. E depois, a direção super rápida, direta e precisa, ajuda a andar verdadeiramente depressa. E mesmo que nos buracos se sinta em demasia a pancada, não será por ai que vamos cumprir a viagem com dores nas costas.
Quando carregamos no botão Sport, os ganhos são muito poucos. Em primeiro lugar, a direção fica demasiado artificial e o que oferece em termos de resposta do acelerador é perfeitamente descartável pois o motor tem alma até Almeida e ultrapassar, por exemplo, é um exercício que se resolve carregando a fundo no acelerador sendo praticamente desnecessário usar a caixa. O Mini Coupé Cooper SD está equipado com o sistema Minimalism (o EfficientDynamics) pelo que o start/stop é de série.
Sai do Cooper SD e peguei no John Cooper Works, começando por olhar para a folha técnica. O motor 1.6 litros sobrealimentado debita 210 CV e um binário de 260 Nm. Na essência, o carro é igual ao modelo diesel nos aspetos práticos. Muda tudo na capacidade explosiva do motor e em, algum desapontamento com o conforto.
O Coupé JCW é duríssimo! E nem sequer vale a pena ligar o modo Sport porque o carro fica uma verdadeira tábua. O lado bom dessa dureza reside numa agilidade fenomenal, um comportamento brilhante e um gozo na condução que me deixou com um sorriso de orelha a orelha.
Mas... que carro tão duro Meu Deus!, ao fim de poucos quilómetros é cansativo andar com o JCW. E já agora, mais um pormenor: o que passou pela cabeça dos homens da Mini para relaxarem na insonorização?! Eu até gosto de ouvir o barulho do motor, mas no JCW, por amor de Deus! que barulheira!
Tirando isso, os mesmos elogios e as mesmas criticas ao Cooper SD, num carro que dá um gozo bestial de conduzir, muito ajudado pelo excelente motor, mas que custa um disparate, quase 39 mil euros que são perfeitamente injustificados.
Veredicto
O Mini Coupé, na minha opinião, faz pouco sentido. São demasiados compromissos num carro só: só dois lugares, visão para trás quase inexistente e que passa a inexistente quando se levanta o aileron a partir dos 80 km/h e um preço de 31.850 euros que encontro dificuldades em justificar. É divertido sim senhor, mas... E o Coupé John Cooper Works ainda custa mais recomendar a alguém, pois é ainda mais caro... Por tudo isto, se na gama Mini aceito e aplaudo o nada puro Countryman, custa-me muito encontrar justificações para dar sentido ao Mini Coupé.
José Manuel Costa