Quando me sentei no Mini, não pude deixar de sorrir e pensar porque raio é que ia andar novamente com o John Cooper Works. Depois, lembrei-me que esta é a mais recente versão do modelo e, envergonhado pela minha patetice, lá voltei a sair e envolver o Mini num primeiro olhar.
Lá estão todas as novidades que o “restyling” que a Mini operou no modelo, com toda a cosmética nova que a versão John Cooper Works acrescenta e que, digo desde já, não é assim da minha predileção Desculpem a franqueza, mas são misturas de cores a mais e plásticos também a mais que desfiguram ligeiramente a forma do Mini. Dedo para cima para as jantes e para os alargamentos das cavas das rodas, mas à frente e atrás… os plásticos não me convencem. Desculpem qualquer coisinha, mas o que a Citroen fez no DS3 Racing, por exemplo, é mais apelativo.
Depois, lá dentro, o mesmo sintoma de falta de qualquer coisa. Que raio, então esta não é a versão mais desportiva do Mini?! Onde estão as bacquets Recaro?! Onde está o volante especifico para o John Cooper Works?! Onde estão os instrumentos específicos desta versão?! Pois… não estão. Esta minha embirração – que vem desde a primeira geração – não impede que reconheça que há mais qualidade no interior e que os bancos, apesar de não serem minimamente desportivos, até são capazes de segurar jovens esbeltos e belos. Mas que dizer dos menos beneficiados pela genética? Olhem que eu escorrego e muito nestes bancos… Lá está, custava muito pedir à Recaro que fizesse umas bacquets com apoio lateral sério? E não será por falta de verba, pois até a Renault faz o mesmo no Megane RS.
Como habitualmente no Mini, espaço é coisa que não abunda sendo os bancos traseiros quase uma decoração se o condutor e o pendura forem assim a dar para o maior. E o aceso também não é lá grande coisa. Mas também, quem é que quer andar no banco de trás de um Mini John Cooper Works? Ninguém!
E não vale a pena perguntar pela bagageira, pois nesse aspeto, o Mini segue as pisadas do modelo original do brilhante engenheiro britânico, SIr Alec Issigonis (pronto, acabei de satisfazer um enorme número de leitores que se queixam de ninguém lembrar o senhor). Ou seja, pequena e sem grandes possibilidade de arrumação. Mas… quem é que quer saber da mala ao volante de um Mini John Cooper Works? Ninguém!
Cumprida a fase de ajuste de todos os comandos, espelhos e volante – que fica exemplarmente colocado – lá coloquei o motor a funcionar através do botão colocado ao lado do volante em cima de uma prega do tablier. Dizer também que não há nenhuma diferença para os outros Mini, pelo que lá dentro não se sabe em que carro se está sentado.
Quer dizer, não sabia até dar a primeira sapatada no acelerador e chegar até mim o som do quatro cilindros sobrealimentado. E olhar para a alavanca da caixa com números a vermelho. E olhar para a faixa vermelha do tablier. E olhar para os vivos a vermelho nas costuras dos bancos.
A condução deste Mini John Cooper Works no tráfego é igual à de todos os outros Mini. Quer dizer, até apanhar piso mais degradado, onde começam as dores… de costas. E de cabeça também, pois por muito bom que seja o chassis e o conjunto suspensões/direção, o “torque steering” (a força exercida pelo binário nas rodas que faz o carro guinar para um dos lados devido a essa força) é evidente e quando apanhamos piso degradado, a frente do Mini lê a estrada toda. E se optar pela suspensão desportiva (200 euros), o Mini fica mesmo uma tábua dura e inclemente com as costas.
Deixámos para trás a cidade e a autoestrada (que se for feita durante muito tempo acaba por irritar, pois o “bruá” do motor entranha-se na cabeça e incomoda… mais ainda se formos mesmo depressinha) e chegámos onde o Mini John Cooper Works é rei: a estrada de montanha. Pronto, fomos até à Serra de Sintra e na volta fizemos as curvas da Palhaça… Não, não digo onde é para não sobrecarregar o traçado de testes com trânsito. Adiante.
Com piso regular e liso, o Mini John Cooper Works equipado com pneus de baixo perfil feitos de cola, é impressionante. Ligado o modo Sport, a direção e o acelerador ficam ainda mais diretos e o John Cooper Works muda de direção com uma rapidez alucinante. Com uma travagem de bom nível – vá lá, uns conjuntos Brembo com pastilhas DS davam jeito, não que falte potência aos travões, mas a resistência à fadiga devia ser maior – é uma paródia pegada travar tarde, muito tarde, muito, muito, tarde (às vezes já dentro da curva) e com um golpe de direção manter a frente “en su sito” com a traseira por vezes a escorregar um bocadinho para ajudar a sair muito depressa das curvas. Uau! Adrenalina no máximo e… Ai! Quase!
Pois, o entusiasmo leva-nos a perder a noção e sendo estreito e nervoso, algumas vezes o Mini foge-nos ao controlo. Nada que uma atenta correção do volante e um acelerador a fundo não resolvam, mas convém não deixar que a adrenalina nos faça pensar sermos imortais e de repente acabar-se-nos o talento e ficarmos presos no cenário…
Como referi, os travões são excelentes, mas acusam alguma fadiga após alguns quilómetros de paródia serra acima, serra abaixo. Quando aparece o mau piso, tudo se transforma e o Mini John Cooper Works deixa de ter tanta piada e começa a fugir demasiadas vezes ao meu controlo, saltitando e, como referi acima, “lendo” demasiado a estrada.
Não, não me esqueci do motor. O bloco de 1.6 litros sobrealimentado é um poço de força e de virtude, com 211 CV e 280 Nm de binário, sendo importante ajuda para nos safar de situações onde a ambição (ou parvoíce…) é maior que o talento. Com a pressão de sobrealimentação aumentada para 1,3 bar, admissão revista e escape trabalhado, o barulho do John Cooper Works é excitante. Então acima do patamar das 5000 rpm… Ah! e no Mini não há cá atrasos na resposta do turbo nem pontapés nas costas quando a turbina descarrega a tormenta nos cilindros. É tudo progressivo, mesmo que depressa. Muito depressa! Pena que a caixa bem escalonada não seja mais rápida e algumas vezes acabe mesmo por ser recalcitrante e amiúdes vezes em situações mais quentes, a passagem de caixa fosse acompanhada por um “qrrrrrrrrrrr” ou por um “thump”. E algumas vezes fiquei com o Mini em ponto morto…
Veredicto
O Mini John Cooper Works é um brinquedo. Caro (mais de 35 mil euros) na perspetiva de existir um Citroen DS3 Racing com o mesmo motor, mais barato e com muito maior racionalidade. É verdade que o fator paródia é inferior, mas não tanto que impeça alguém racional de pensar duas vezes antes de comprar um carro sem espaço, sem mala e que é mesmo muito duro. Seja como for e apesar de ter uma filhota pequena, caso tivesse dinheiro armava-me em parvo e comprava o Mini, pois a diversão é muito, muito, muito grande, a qualidade da construção é melhor, o motor, apesar de igual, tem no Mini alguns pozinhos de “perlimpimpim” e além disso fico muito bem dentro de um Mini John Cooper Works (dizem) e eu gosto mesmo muito do carro! Se fosse a minha mulher a mandar, pois lá teria de ir comprar o DS3 Racing, que com alguma felicidade já não haverá à venda…
José Manuel Costa