Imagine-se um local onde robôs e pessoas trabalham lado a lado como velhos amigos, e onde cada automóvel que sai da linha de produção carrega um pouco da alma sueca. Esse lugar existe, e fica em Ghent, na Bélgica, por forma a estar mais próximo dos seus clientes europeus.
A fábrica da Volvo não é só mais uma unidade industrial mas um palco que conjuga inovação, tradição e humanidade para criar automóveis.
Para alguém que vive e respira automóveis e tecnologia, visitei este local (ou pelo menos sonhei com ele) e trago-vos o que faz de Ghent o coração pulsante da Volvo na Europa.
Um lar para o EX30 e mais alguns
Ghent é o local onde nascem modelos como o EX30, o SUV elétrico compacto que tem conquistado consumidores – em Portugal foi um dos elétricos mais vendidos – lado a lado com outros eletrificados como os 100% elétricos EX40 e EC40, os híbridos XC40 e a V60.
Só em 2024, esta fábrica produziu cerca de 186 mil automóveis, um número deveras interessante. Cada automóvel é construído “sob medida”, como um fato, adaptado aos desejos de quem o vai conduzir.
O EX30 começou a ser produzido em Ghent em abril de 2025, é a estrela – pelo que incorpora em termos de mobilidade sustentável, mas também porque representa a aposta da Volvo em tornar os elétricos acessíveis sem sacrificar o estilo e segurança (algo que percebi – e toquei – e que levam mesmo a sério).
E porquê Ghent? A resposta reside na estratégia da Volvo. Produzir na Europa não a condiciona às tarifas da UE sobre elétricos importados da China, local onde o EX30 nasceu. Além disso, é a forma de estar mais perto e de ser célere nas entregas aos clientes europeus. Mas também porque importa cortar nas emissões, no transporte e apoiar a economia local. Com mais de 6.500 trabalhadores, Ghent é o maior empregador privado da Bélgica, e cada Volvo que sai da fábrica carrega o orgulho de uma comunidade que vive para a excelência e que se nota feliz no que faz.
Uma dança entre homens e máquinas
Entrar na fábrica de Ghent é como assistir a um bailado tecnológico. Mais de um milhar de robôs movem-se com precisão, soldando e montando peças com velocidade e precisão (quase ausência de ruído). Aqui a mão humana é residual. Mas não se enganem: o toque humano é o que dá vida a estes Volvo. Há trabalhadores que, com anos de casa, tratam cada detalhe – dos acabamentos, das rodas, dos interiores até às verificações finais (todos os Volvo são verificados e não aleatoriamente) e da montagem (criação) das baterias.
E depois há o “cão robô” – um gadget futurista!! Inspirado no Spot da Boston Dynamics é uma estrela. Este quadrúpede tecnológico patrulha as linhas de produção, utilizando câmaras 360° e sensores LiDAR para detetar falhas em tempo real, desde peças desalinhadas a erros de montagem. Com movimentos ágeis, navega por áreas complexas, reduzindo os riscos para os trabalhadores e garante precisão em tempo real. Em vez de alarmes, emite uma melodia suave para sinalizar problemas. Não é por isso um gadget, mas um parceiro que une eficiência, segurança e o toque humano que define a Volvo.
Robôs cuidam do trabalho pesado, humanos trazem a alma, e a logística garante que tudo flui sem desperdícios, com peças a chegar de fornecedores locais na hora certa.
O ambiente é surpreendentemente calmo. O design acústico abafa o barulho das máquinas, e há espaços onde os trabalhadores podem descansar. A Volvo preocupa-se com as pessoas – desde ferramentas ergonómicas que evitam lesões até treinos que mantêm todos em forma. Aqui, a segurança não é só para os carros; é também para quem os constrói.
Segurança: O coração da Volvo
Falar da Volvo é falar de segurança. Desde que inventaram o cinto de três pontos em 1959, a marca sueca não brinca não vacila neste item. Em Ghent, cada EX30 é construído com estruturas reforçadas, baterias protegidas e tecnologias como travagem automática e deteção de pedestres. Tudo é testado até à exaustão, porque a visão da Volvo neste domínio é clara: zero fatalidades. E não é só marketing – é uma promessa da marca!
A revolução das baterias em Ghent
Numa corrida contra o tempo em 2020, a fábrica de Ghent teve de se direcionar para a electrificação, garantindo também uma linha de montagem de baterias, as químicas LFP (fosfato de ferro e lítio) e NMC (níquel, manganês e cobalto), para integrarem modelos como o XC40 Recharge e, agora, o EX30.
Segundo a marca, em 2024, já em velocidade de cruzeiro consegue disponibilizar milhares de unidades para suportar a crescente procura por veículos elétricos. Visitámos este pavilhão, com uma equipa diversificada, incluindo muitas jovens mulheres, num ambiente limpo, calmo e organizado. A ideia é combinar inovação com inclusão, dando espaço a novos talentos numa indústria tradicionalmente masculina mas também na inclusão do factor humano numa fábrica 80% robotizada.
O desafio da logística
Apesar de toda a inovação, o maior desafio da Volvo em Ghent é a logística. Cada componente – desde a carroçaria aos pneus – tem de chegar no momento exato. Um pequeno atraso numa peça pode parar toda a linha de produção, causando atrasos dispendiosos. A Volvo investe em parcerias com fornecedores locais e sistemas logísticos avançados para minimizar estes riscos, mas a complexidade de coordenar milhares de peças é um teste constante à sua eficiência.
Por motivos de segurança, não visitámos a zona de pintura, onde tintas e processos químicos exigem controlo rigoroso. No entanto, tivemos a oportunidade de explorar a zona de acabamentos, onde uma sinfonia silenciosa acontece. Aqui, dezenas de trabalhadores, numa coreografia calma e precisa, instalam interiores, cablagens e componentes finais, , um processo meticuloso, onde cada detalhe conta, e a dedicação dos trabalhadores é palpável.
O EX30 e o Futuro em Portugal
O EX30 é extremamente importante para a Volvo pois é um símbolo do que pretende para o futuro. Possui uma autonomia de até 475 km, um interior escandinavo (minimalista), com muito recurso a plásticos reciclados e um preço a partir de 36 mil euros, este SUV compacto é um sucesso.
Em 2024, foi o quarto elétrico mais vendido na Europa e em Portugal – onde os elétricos também cresceram surge atrás da Tesla
Porque isto importa?
Para a Volvo a fábrica de Ghent não tem de ser apenas uma linha de produção mas incorporar os valores que a Volvo representa: inovação que liga as pessoas, tecnologia que protege o planeta e automóveis que contam histórias.
O EX30, produzido nesta fábrica em conjunto com outros modelos, pretende ser a “ponte” para um futuro elétrico onde o acto de conduzir é seguro, sustentável e (ainda) humano.
A Volvo quis também mostrar o seu compromisso com a sustentabilidade ao integrar baterias LFP e NMC de baixa pegada ecológica, reduzir emissões logísticas com produção local, mas também com a implemntação de processos que minimizam desperdícios, como a gestão eficiente de recursos na fábrica. Por exempo, interiores recicláveis, energia renovável nas operações de forma a alcançar a neutralidade carbónica até 2040.
Num momento em que a AI domina a comunicação e surge nas nossas vidas, contar esta história/experiência serve para nos recordar que, num mundo de robôs e algoritmos, tem de haver espaço para o toque humano e para empresas que cuidam do nosso planeta.
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