Futuro automóvel: porque é que o caminho para 2035 não é (só) elétrico

Futuro automóvel: porque é que o caminho para 2035 não é (só) elétrico

A transição energética no setor automóvel já não é uma hipótese, é um processo em andamento com três vetores a empurrar a mudança – políticas públicas, evolução tecnológica e preferência dos consumidores. Mas essa não é uma linha reta do “combustão > elétrico”. Existe um corredor amplo de soluções intermédias: e a Renault é um bom exemplo dessa ambivalência estratégica.

O “ultimato” de 2035 para o fim da combustão

Se acompanha o mundo da tecnologia e dos motores, sabe que o debate está ao rubro. De um lado, temos o “tique-taque” do relógio para 2035, a data imposta pela União Europeia para o fim da venda de carros novos a combustão. Do outro, a realidade do mercado: os custos de aquisição, a infraestrutura de carregamento e as necessidades reais e diversas dos condutores.

A rota para a descarbonização está traçada, mas o caminho para lá chegar é complexo. O futuro não é um interruptor que se desliga em 2034 e se liga em 2035; é uma transição. E, nessa transição, as soluções intermédias não são um “plano B”, são a ponte essencial.

A decisão da UE foi clara: a partir de 2035, todos os novos automóveis vendidos têm de ser “zero emissões” (na prática, 0 g/km de CO₂). Esta diretiva acelerou o investimento maciço em plataformas 100% elétricas (VE). Contudo, a indústria não está totalmente unida. A pressão de vários fabricantes e associações do setor tem sido imensa, e as preocupações são legítimas:

  • Infraestrutura: a rede de carregamento público está a crescer, mas de forma muito desigual entre os países e entre zonas urbanas e rurais.
  • Custo e matérias-primas: o preço das matérias-primas para as baterias (como o lítio) torna os VE, por agora, mais caros na aquisição.
  • Capacidade industrial: a transição industrial para a produção massiva de baterias e a reconversão de fábricas é um desafio económico e social gigantesco.
  • Pragmatismo de mercado: o que fazer nos mercados com menor poder de compra ou em frotas que necessitam de autonomia total imediata?

Esta pressão já resultou numa pequena, mas significativa, concessão: uma possível via (ainda que estreita) para e-fuels (combustíveis sintéticos). Isto prova que o debate “combustão vs elétrico” está longe de ser um caso arrumado e que o cenário político-técnico continua a moldar os investimentos.

Renault tem uma estratégia “ambivalente”

É aqui que a estratégia de algumas marcas se torna fascinante. A Renault, por exemplo, adotou o que alguns chamam de “ambivalência”, mas que preferimos chamar de pragmatismo. Em vez de apostar tudo numa só tecnologia, o grupo dividiu o seu futuro em dois caminhos paralelos e complementares:

  • Ampere: a nova divisão tech, focada a 100% em VE e software. É a resposta direta ao “fim” de 2035 e à concorrência global. É daqui que nascem os ícones como o Renault 5, o Renault 4 e o Twingo elétrico.
  • Horse: uma entidade dedicada a continuar a desenvolver e a produzir motores térmicos e híbridos da próxima geração.

Porque fariam isto? Porque a Renault sabe que, até 2035 (e mesmo depois, no mercado de usados e noutros continentes), milhões de pessoas continuarão a precisar de soluções híbridas e de combustão eficientes. Esta estratégia permite-lhes liderar a corrida de VE com a Ampere, enquanto financiam essa transição e servem o mercado atual com a Horse.

Pontes essenciais na estratégia da Renault: híbridos e bi-fuel

O maior erro no debate atual é pensar de forma binária (ou é 100% combustão ou 100% elétrico). A verdade é que o maior impacto na redução de emissões hoje vem das soluções intermédias.

Estas tecnologias permitem que um condutor reduza drasticamente a sua pegada carbónica e os seus custos de utilização sem sofrer de “ansiedade de autonomia” ou depender de uma infraestrutura de carregamento que pode não existir na sua garagem ou na sua zona. É aqui que entram duas soluções-chave:

  • Híbridos (HEV / Full Hybrid): reduzem o consumo e as emissões de forma significativa, especialmente em cidade, sem nunca exigir carregamento na tomada. São ideais para quem não tem carregamento doméstico;
  • Bi-fuel (Gasolina + GPL / ECO-G): multiplicam a autonomia total e oferecem custos por quilómetro substancialmente mais baixos quando se usa GPL. A instalação de fábrica (como a da Renault) evita os riscos de conversões aftermarket e é particularmente relevante em mercados com boa rede de abastecimento, como Portugal.

Clio é o trunfo nesta transição

Se quisermos um exemplo perfeito deste pragmatismo, basta olhar para o Renault Clio. Este modelo icónico ilustra como a mesma plataforma pode responder a necessidades completamente diferentes.

1️⃣ Clio E-Tech (Full Hybrid) 

Esta é, na nossa opinião, uma das peças de engenharia mais inteligentes do mercado atual. Não é um plug-in; não precisa de o ligar à tomada. A sua magia está numa tecnologia complexa (inspirada na Fórmula 1) com uma caixa de velocidades multimodo, que combina um motor a gasolina com dois motores elétricos e uma pequena bateria que se autorregenera nas travagens e desacelerações.

O resultado? A Renault anuncia que, em cidade, o Clio E-Tech consegue circular até 80% do tempo em modo 100% elétrico.

Realize até 80% de condução elétrica na cidade e desfrute de uma autonomia total de até 900 km.

O seu verdadeiro trunfo é a autonomia total. Graças a esta eficiência extrema, não é raro ver este Clio ultrapassar os 900 km com um único depósito. Numa era em que se discute a ansiedade de autonomia, a Renault oferece um utilitário que quase nos faz esquecer onde fica a bomba de gasolina, ao mesmo tempo que oferece uma condução elétrica na rotina diária.

2️⃣ Clio Bi-Fuel / ECO-G

Esta versão é a resposta para quem procura economia máxima e autonomia absoluta. Ao ter dois depósitos (gasolina + GPL), a autonomia combinada é massiva – algumas configurações podem ultrapassar os 1100 km ou 1300 km antes de precisar de reabastecer.

Com o preço do GPL a ser significativamente mais baixo, o custo por quilómetro torna-se imbatível para um carro a combustão, conferindo ao Clio uma polivalência que responde diretamente às necessidades de quem faz muitos quilómetros ou tem um orçamento mais controlado.

O que é que isto significa para o consumidor?

A estratégia da Renault traduz-se em escolhas pragmáticas para o consumidor, especialmente em Portugal:

  • Para o condutor urbano (sem garagem): o Clio E-Tech (Full Hybrid) é uma solução brilhante. Oferece a sensação e a poupança da condução elétrica na cidade, sem nunca precisar de uma tomada;
  • Para o condutor de longas distâncias ou focado no orçamento: o Clio Bi-Fuel (GPL) é imbatível. Reduz drasticamente os custos por quilómetro e elimina qualquer ansiedade de autonomia, aproveitando a rede GPL consolidada no país.
  • Para o condutor “early adopter” (com garagem): a Renault reserva a gama Ampere (como o R5). A escolha depende do acesso ao carregamento e do custo total de posse.

O futuro do automóvel será predominantemente elétrico, sim. Mas a transição até lá será multi-energia e heterogénea. A Renault percebeu que não pode deixar nenhum condutor para trás. Ao oferecer estas soluções intermédias, como os sistemas E-Tech e Bi-Fuel, enquanto investe milhares de milhões no futuro 100% elétrico com a Ampere, a marca está a provar que a inovação não está só nos VE.

 

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