Que a Europa está altamente dependente da China em algumas matérias já sabíamos. No entanto, com o agravamento das tensões geopolíticas que estão a afetar a empresa de semicondutores Nexperia, nos Países Baixos, as fabricantes de automóveis europeias estão a analisar formas de eliminar componentes produzidos com peças provenientes do país asiático.
No mês passado, uma súbita perturbação no fornecimento da Nexperia, uma empresa baseada nos Países Baixos, mas detida por capitais chineses, abalou a indústria europeia.
O conflito agravou-se quando a China bloqueou as exportações de componentes essenciais das fábricas chinesas da Nexperia, em resposta à decisão dos Países Baixos de assumir o controlo das operações da empresa no país.
Além de o preço dos componentes ter disparado, as consequências espalharam-se rapidamente entre as fabricantes que dependem dos seus processadores simples, mas essenciais:
- A Honda reduziu as previsões de lucro anual após parar a produção em algumas fábricas;
- A ZF Friedrichshafen AG e a Robert Bosch GmbH, a maior fabricante mundial de componentes automóveis, abrandaram a produção;
- A Volkswagen AG e a BMW AG criaram equipas especiais para garantir o fornecimento de semicondutores.
Fonte: Reuters
A Nexperia, cujos processadores alimentam funções simples como o controlo dos vidros elétricos e dos sistemas de direção, detém mais de 20% do mercado nesse segmento, atualmente, segundo a empresa de pesquisa Omdia.
Segundo Sapna Amlani, responsável pela área de cadeias de abastecimento globais da Moody’s, citada pela Bloomberg, “para os responsáveis pelas compras, isto é mais do que uma perturbação temporária”.
Na verdade, “revela um risco estrutural, [pois] as decisões geopolíticas podem alterar a economia das cadeias de fornecimento de forma imediata”.
Apesar de os governos terem feito alguns progressos no sentido de uma resolução, e as entregas tenham sido retomadas, o conflito na Nexperia mantém-se, deixando as preocupações de abastecimento em destaque.
Ocidente está altamente dependente da China
O conflito em torno dos processador junta-se às preocupações persistentes sobre o fornecimento de terras raras, fundamentais para os motores elétricos e baterias.
Conforme já vimos, a China mantém uma liderança isolada no processamento destes materiais e, por forma a reforçar a sua influência, tem restringido o fornecimento.
Na perspetiva de Zink, qualquer reajuste significativo para o fornecimento de componentes fora da China, sejam baterias, processadores ou terras raras, vai exigir tempo, estimando um período de três a sete anos, conforme o componente.
Não devemos ter ilusões. [Substituir células de bateria e refinarias chinesas] vai ser difícil durante décadas”.
Fabricantes europeias procuram alternativas à China
Neste cenário de incerteza, com o agravamento das tensões geopolíticas que estão a afetar a Nexperia e os controlos de exportação de terras raras impostos pela China, as fabricantes europeias estão a analisar formas de eliminar componentes produzidos com peças chinesas.
Por forma a proteger as suas operações de perturbações comerciais, várias marcas estão a pressionar os principais fornecedores a encontrar alternativas permanentes aos semicondutores chineses, segundo pessoas familiarizadas com o assunto, sob anonimato devido à natureza confidencial das discussões, citadas pela Bloomberg.
De acordo com Matthias Zink, presidente da principal associação europeia de fornecedores, a CLEPA, o setor está a considerar mudanças mais amplas na sua cadeia de abastecimento, procurando adaptar-se ao novo contexto geopolítico.
Já tínhamos tido alguns sinais, perguntas como “como podem fornecer-me isto sem dependência da China?”.
Contou Zink, que lidera, também, a divisão de grupo motopropulsor e chassis da Schaeffler AG, numa entrevista.
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