Finalmente, a Europa começa a impor o seu domínio. A França e a Ucrânia assinaram na segunda-feira uma carta de intenções histórica para a aquisição de aviões Rafale, até 100 potencialmente. Este contrato colocaria Kiev na primeira linha dos clientes de exportação do caça francês.
Um acordo que Kiev considera histórico
Volodymyr Zelensky não hesitou em falar de acordo histórico. Recebido esta segunda-feira, 17 de novembro, por Emmanuel Macron na base aérea de Villacoublay, o presidente ucraniano assinou uma carta de intenções relativa à futura compra de até 100 Rafale, acompanhados de sistemas de defesa antiaérea SAMP-T e drones.
O compromisso surge num momento em que Kiev enfrenta novos ataques maciços russos e atravessa uma fase delicada no terreno.
O principal cliente de exportação do Rafale francês
Com estes 100 aparelhos da Dassault, a Ucrânia passaria a deter a segunda maior frota mundial de Rafale, atrás dos 225 exemplares franceses.
Kiev ultrapassaria assim os Emirados Árabes Unidos (80 aparelhos), a Índia (62) e o Egipto (55), tornando-se o principal cliente de exportação do caça francês.
O cenário reforça a reputação da Dassault Aviation, cujo 300.º Rafale saiu recentemente das linhas de produção.
Mas é preciso manter prudência. Esta carta de intenções não equivale a uma encomenda firme. A fatura situar-se-ia entre 10 e 15 mil milhões de euros, segundo estimativas do Eliseu.
Equipado com dois motores Snecma M88, o Rafale atinge velocidades superiores a Mach 1.8 (cerca de 1.900 km/h). A sua arquitetura aerodinâmica com canards permite elevada manobrabilidade, mesmo a baixa velocidade. Consegue voar entre 1.800 e 3.700 km, dependendo da configuração e da carga. Pode ainda usar reabastecimento em voo, ampliando muito o raio de ação.
Um valor colossal que levanta de imediato a questão do financiamento para um país em guerra e altamente dependente da União Europeia nos últimos anos. A presidência francesa assume querer colocar a excelência da indústria de armamento francesa ao serviço da defesa da Ucrânia.
No terreno, em Villacoublay, industriais e militares apresentaram ao líder ucraniano não só o Rafale e o seu armamento, mas também o sistema antiaéreo SAMP-T de nova geração, escolhido recentemente pela Dinamarca.
O objetivo permanece o de proteger o espaço aéreo ucraniano face à agressão russa, que matou pelo menos três pessoas na região de Kharkiv durante o último fim de semana.
O Sistema Antiaéreo Terrestre de Médio Alcance, ou SAMP/T, entrou em serviço nos exércitos francês e italiano no início da década de 2010, o consórcio Eurosam, que lidera o programa, juntamente com os fabricantes MBDA, Thales e Leonardo.
Os Rafale não chegarão já a Kiev
Paris reviu entretanto a sua posição. No início do conflito, Emmanuel Macron temia que a transferência de aviões de combate desencadeasse uma escalada descontrolada. Impunha então condições estritas: ausência de ataques em território russo e não fragilizar as capacidades francesas.
A viragem deu-se a 6 de junho de 2024, com o anúncio do envio de vários Mirage 2000-5F. A decisão concretizou-se no início de 2025, quando Sébastien Lecornu, então ministro das Forças Armadas, confirmou a 6 de fevereiro a entrega dos primeiros aparelhos. Estão previstos seis no total, segundo relatórios orçamentais.
Mirage 2000-5F francês, monomotor de alta performance capaz de atingir Mach 2.2, equipado com radar RDY de longo alcance e armamento ar-ar MICA, destacando-se pela agilidade e fiabilidade em missões de superioridade aérea.
Quanto aos Rafale, como lembra o almirante Jean-Louis Vichot, antigo chefe de missão militar francesa na NATO, em declarações à BFMTV, não os terão tão cedo, desde logo porque é necessário formar mecânicos e pilotos e porque a própria França tem dificuldade em dispor de aeronaves suficientes.
A Dassault Aviation antecipa, contudo, esta procura crescente e aumentará o ritmo de produção para três aviões por mês em 2026, com o objetivo de atingir quatro por mês em 2028-2029.
A estratégia de reforço total do arsenal ucraniano
A França assume assim um papel central na estratégia de armamento em larga escala promovida por Zelensky. No final de outubro, o líder ucraniano já tinha assinado uma carta de intenções para adquirir entre 100 e 150 caças Gripen suecos.
Caça Gripen sueco, monomotor capaz de atingir Mach 2, com alcance superior a 3.000 km, baixo custo operacional e integrado com mísseis Meteor e sistemas avançados de guerra eletrónica, destacando-se pela agilidade e eficiência em operações modernas.
Zelensky espera construir uma frota de 250 novos aparelhos através de discussões paralelas com suecos, franceses e americanos.
Após a passagem por Villacoublay, Macron e Zelensky deslocaram-se ao Monte Valérien para visitar o comando da força multinacional Ucrânia, que reúne 35 países e está pronta a intervir em caso de um eventual cessar-fogo.