Como o acordo de cessar-fogo entre os EUA e o Irão pode mexer na carteira dos portugueses

Como o acordo de cessar-fogo entre os EUA e o Irão pode mexer na carteira dos portugueses

O acordo de cessar-fogo alcançado, ontem à noite, entre os Estados Unidos da América (EUA) e o Irão terá consequências além do âmbito político e militar. Depois de semanas marcadas por tensão no Médio Oriente, o entendimento entre os dois países já está a impactar os mercados, com o preço do petróleo a cair de forma significativa. Eis como pode mexer na carteira dos portugueses!

O que se sabe sobre o cessar-fogo entre os EUA e o Irão

Ontem, mais de um mês depois de os EUA e Israel terem lançado ataques coordenados contra o Irão, foi acordado um cessar-fogo condicional de duas semanas, durante o qual será permitido o tráfego marítimo através do Estreito de Ormuz, uma rota marítima vital para o transporte de petróleo e outras exportações do Golfo.

O acordo surgiu poucas horas depois de o Presidente norte-americano ter ameaçado que “uma civilização inteira morrerá esta noite” se o Irão não reabrisse o estreito, e menos de duas horas antes do prazo das 20h00 (hora da costa leste dos EUA) imposto por Trump para o Irão reabrir o estreito.

Entretanto, o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, que tem mediado as negociações, afirmou que o cessar-fogo entrou em vigor de imediato.

Após as negociações, o Presidente dos EUA afirmou ter concordado em “suspender o bombardeamento e os ataques ao Irão por um período de duas semanas”, sob a condição de Teerão concordar em reabrir o Estreito de Ormuz.

Numa publicação na Truth Social, Trump informou que aceitou o cessar-fogo provisório, porque “já alcançámos e superámos todos os objetivos militares”.

No âmbito do acordo, o Irão concordou em permitir a passagem de embarcações pelo Estreito de Ormuz durante duas semanas, sendo a travessia coordenada pelas forças armadas iranianas.

O país apresentou, também, um plano de 10 pontos que inclui, entre outros:

  • A cessação completa da guerra no Irão, Iraque, Líbano e Iémen;
  • O “compromisso total” com o levantamento das sanções ao Irão;
  • A libertação de fundos iranianos e ativos congelados detidos pelos EUA;
  • O “pagamento integral de compensações pelos custos de reconstrução” ao Irão.

O mesmo plano afirma ainda que “o Irão compromete-se plenamente a não procurar possuir armas nucleares”.

Segundo Sharif, o cessar-fogo entrará em vigor, também, no Líbano, onde Israel afirma estar a combater o grupo militante Hezbollah, apoiado pelo Irão, num confronto que a liderança israelita assegura que não vai abandonar enquanto a ameaça do Hezbollah não for eliminada.

Neste cenário, apesar do acordo entre os EUA e o Irão, não há qualquer indicação de que Israel tenha concordado em suspender as suas operações no Líbano, ou noutros locais, não sendo claro até que ponto Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro do país, esteve envolvido na tomada de decisão de Donald Trump.

Entretanto, o Paquistão convidou os países para se reunirem em Islamabad, na sexta-feira, “para continuar a negociar um acordo conclusivo que resolva todas as disputas”.

Preços do petróleo caem abaixo dos 100 dólares após acordo

Após o acordo, não tardou até que os preços do petróleo caíssem acentuadamente, nesta quarta-feira.

Segundo a CNBC, o West Texas Intermediate (WTI) caiu mais de 15%, para 96,6 dólares por barril por volta das 7h da manhã de Portugal continental. Por sua vez, o Brent do Mar do Norte, referência europeia, caiu mais de 14%, fixando-se nos 93,9 dólares por barril.

Desde o início do conflito, no final de fevereiro, as exportações de petróleo através do Estreito de Ormuz diminuíram drasticamente devido aos ataques do Irão contra navios comerciais, provocando a maior interrupção no fornecimento de crude da história.

Uma vez que a rota marítima liga os produtores do Golfo Pérsico aos mercados globais, cerca de 20% do abastecimento global de petróleo passava pelo estreito antes de os EUA e Israel atacarem o Irão.

Os preços do petróleo bruto, combustível de aviação, gasóleo e gasolina aumentaram fortemente durante a guerra, assim como produtos alimentares e outros bens.

Diretores-executivos do setor petrolífero e analistas têm alertado que a escassez de combustíveis terá repercussões em todo o mundo se o estreito não reabrir totalmente.

Impacto no bolso dos portugueses

O acordo de cessar-fogo entre os EUA e o Irão poderá ter um impacto direto na carteira dos portugueses, porque reduz, pelo menos para já, a tensão em torno do Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo para o transporte de petróleo e gás.

Quando existe risco de bloqueio ou de ataques no estreito, os investidores antecipam possíveis falhas no abastecimento global e o preço do petróleo sobe rapidamente. Pelo contrário, quando há sinais de estabilidade, como um cessar-fogo ou a reabertura da rota marítima, os mercados reagem em baixa porque deixam de temer uma escassez de oferta.

Foi isso que aconteceu após o anúncio do acordo entre os dois países, com o petróleo a recuar depois de semanas de forte pressão.

Para os portugueses, o impacto mais imediato deverá sentir-se nos combustíveis, uma despesa que, semana após semana, tem pesado na sua carteira.

Como Portugal importa praticamente toda a energia fóssil que consome, qualquer descida no preço internacional do petróleo tende a refletir-se, mais cedo ou mais tarde, no preço da gasolina e do gasóleo.

Ainda que a descida não seja imediata, uma queda prolongada no preço do petróleo acaba, normalmente, por refletir-se nas bombas de gasolina, ajudando a aliviar o custo de encher o depósito.

Indo além dos combustíveis per si, o petróleo influencia os custos de transporte, logística e produção industrial, pelo que uma descida sustentada pode ajudar a travar aumentos de preços em vários setores da economia: desde bens alimentares transportados por camião até produtos importados, muitos preços acabam por ser afetados, direta ou indiretamente, pelo custo da energia.

Além disso, o Estreito de Ormuz é relevante para o mercado do gás natural, uma vez que parte importante do comércio mundial de gás natural liquefeito passa, também, por esta rota. Uma normalização do tráfego marítimo ajudará a estabilizar não apenas o petróleo, mas outros mercados energéticos.

De qualquer forma, o impacto positivo do cessar-fogo dependerá da duração do acordo e da manutenção da estabilidade na região.