Tesla sem bateria: solar ajuda, diesel salva

Tesla sem bateria: solar ajuda, diesel salva

Usar um Tesla na Europa, ou nos EUA, não é a mesma experiência de o conduzir noutras partes do planeta. Não pela condução em si, mas pela falta de capacidade de o recarregar. Então, como a dificuldade aguça o engenho, há quem tenha “desbloqueado” mais uma funcionalidade. Carregamento solar. Mas isso não invalida chamar o SOS que vem do petróleo.

Um YouTuber que conduzia um Tesla Model X ao longo de toda a extensão das Américas ficou sem bateria no deserto do Atacama, no Chile, o lugar mais seco da Terra, e teve de recorrer a painéis solares de emergência na berma da estrada para conseguir continuar. Ou quase!

Todo o episódio, registado em vídeo, oferece uma perspetiva fascinante tanto sobre o potencial como sobre os desafios muito reais das viagens de longa distância com veículos elétricos em regiões onde a infraestrutura de carregamento ainda é escassa.

Atravessar as Américas num Tesla Model X

Sandro van Kuijck, criador de conteúdo sediado no Oregon e responsável pelo canal de YouTube EverydaySandro, passou os últimos três anos a conduzir o seu Tesla Model X, apelidado de “Beluga”, desde o ponto mais a norte da Pan-American Highway, em Tuktoyaktuk, Canadá, até ao extremo sul, em Ushuaia, Argentina. O Chile marcou o 14.º país desta expedição a solo.

O “Beluga” está longe de ser um Model X convencional. Van Kuijck transformou o SUV elétrico numa verdadeira casa sobre rodas, com cozinha deslizante personalizada, placa de indução, água corrente, frigorífico e zona para dormir, mantendo o exterior praticamente de origem, exceto pelos pneus todo-o-terreno.

Instalou ainda um sistema solar personalizado de 287 watts no capô, ligado a uma bateria auxiliar EcoFlow Delta 2 de 2 kWh, que alimenta os equipamentos e, em emergência, permite um carregamento lento da bateria principal.

Foi precisamente essa função de emergência que teve o seu primeiro teste real no Atacama.

37 km de autonomia para 42 km até ao carregador

Conforme ele conta, o problema começou a sul de Calama, no norte do Chile. Van Kuijck tinha carregado até 95% num posto rápido da Copec, a maior rede de carregamento de veículos elétricos no país, com mais de 90 estações rápidas, mas subestimou o consumo necessário para subir até aos 3.000 metros de altitude, aliado aos ventos fortes do deserto.

Quando a autonomia desceu para 37 km, com o carregador mais próximo a 42 km, parou na berma da Pan-American Highway e ativou os painéis solares.

O resultado foi modesto, mas crucial. Com uma produção de 180 a 200 watts, o “Beluga” recuperava cerca de 1 a 2 km de autonomia por hora. Um único painel solar de 287 watts não oferece ganhos significativos num curto espaço de tempo, mas fornece algo essencial: energia mínima.

Ao contrário de um carro a combustão, onde ficar sem combustível significa imobilização total, um elétrico com apoio solar pode ganhar energia suficiente para se manter operacional e, eventualmente, chegar ao próximo ponto.

Neste caso, o sistema evitou que a bateria de alta tensão desligasse completamente enquanto Van Kuijck procurava solução. Contactou cinco empresas de reboque, mas nenhuma aceitou percorrer os 30 km até à sua localização. A bateria auxiliar acabou também por se esgotar, deixando-o com 0%.

Um gerador, ajuda inesperada e o regresso à estrada

A situação mudou quando uma equipa de obras rodoviárias nas proximidades lhe permitiu ligar o carro a um gerador industrial. No vídeo, Van Kuijck descreve-os como “os verdadeiros heróis da viagem”, enquanto o gerador fornecia cerca de 6 amperes, o suficiente para manter a bateria ativa.

Mais tarde, amigos que conheceu ao longo da viagem conseguiram arranjar um reboque, que o levou até Calama e a um carregador rápido da Copec, por 135 dólares. Ligado à rede, o Tesla carregou a 36–40 kW, abaixo dos padrões dos Superchargers, mas suficiente para retomar a viagem em cerca de duas horas.

Uma limitação global fora dos grandes centros

A situação vivida no Chile reflete uma realidade global: a mobilidade elétrica ainda enfrenta limitações fora dos grandes centros urbanos. Apesar da expansão das redes de carregamento por empresas como a Tesla e a Copec, vastas regiões continuam sem cobertura adequada, criando verdadeiros “desertos energéticos”.

Mesmo com investimentos e metas ambiciosas, a infraestrutura permanece desigual e, em muitos casos, insuficiente para viagens longas. Problemas adicionais, como falhas na navegação ou na localização de postos, agravam a experiência.

Esta não é uma limitação exclusiva da América do Sul, mas sim um desafio que ainda marca grande parte do planeta. Resta dizer que, apesar do que temos poder ser melhorado, quando olhamos para o resto do mundo, a nossa posição não é nada desfavorável!