Estudo: carros elétricos preferidos por pessoas com níveis de escolaridade mais elevados

Estudo: carros elétricos preferidos por pessoas com níveis de escolaridade mais elevados

O estudo sobre a aquisição dos carros elétricos, por  pessoas com níveis de escolaridade mais elevados, vem de investigadores espanhóis da EHU. Além disso, alertam também que os apoios públicos favorecem os mais ricos e não impulsionam a adoção real de veículos elétricos.

A eletrificação dos transportes: necessária, mas desigual

O transporte rodoviário continua a ser um dos grandes obstáculos na luta contra as alterações climáticas. E não por falta de soluções tecnológicas, precisamente.

A eletrificação avança, sim, mas fá-lo com uma distribuição social claramente desequilibrada. Em Espanha, onde o parque automóvel a par de Portugal, é um dos mais antigos da Europa, a transição para o veículo elétrico avança a um ritmo que não chega a descolar.

O país vizinho pretende alcançar os 5,5 milhões de veículos elétricos em 2030. Contudo, os números dizem-nos que parece mais uma aspiração do que uma realidade. O número atual ronda os 600.000 veículos, o que evidencia uma diferença entre os objetivos políticos e o comportamento real do mercado.

O problema não é apenas tecnológico nem de infraestrutura. É estrutural. E, em parte, social.

Quem acede realmente ao carro elétrico

O estudo liderado pela investigadora Mercè Amich traz algo que até agora faltava, isto é, traz dados reais de propriedade, não simples inquéritos de intenção. E o que mostra não surpreende tanto quanto incomoda.

O veículo elétrico concentra-se em perfis muito concretos, mais concretamente nos agregados familiares com rendimentos elevados, maior nível de escolaridade e localizados em grandes centros urbanos como Madrid ou Barcelona. Não é por acaso.

Estes utilizadores têm maior capacidade de investimento inicial, acesso a pontos de carregamento privados e, em muitos casos, maior sensibilidade ambiental.

Mas também revela algo mais profundo: a transição energética, tal como está desenhada, não está a ser inclusiva.

Em meios rurais ou em cidades médias, onde a dependência do automóvel é ainda maior, o acesso ao veículo elétrico continua a ser limitado. E não por falta de interesse. Por barreiras económicas, logísticas… e também políticas.

Apoios públicos que não mudam o comportamento

Tal como em Portugal, em Espanha, os programas de incentivos nasceram com uma intenção clara: acelerar a adoção do veículo elétrico. No entanto, a análise revela que não estão a cumprir esse objetivo de forma eficaz.

Grande parte dos apoios acaba nas mãos de quem já tinha capacidade para comprar um carro elétrico sem necessidade de subsídio. Ou seja, não se está a alterar o comportamento de compra, que deveria ser o núcleo de qualquer política pública deste tipo.

Pior ainda, em muitos casos, o veículo elétrico não substitui um de combustão. Soma-se. Mais um carro na garagem. Isto dilui o impacto ambiental esperado e transforma o apoio numa espécie de incentivo ao consumo, mais do que à descarbonização.

E claro, assim não funciona.

O desenho das políticas importa (e muito)

Um dos pontos mais relevantes do estudo é a crítica ao desenho atual dos apoios. Não existe diferenciação por nível de rendimento. Um utilizador com elevado poder de compra recebe o mesmo incentivo que alguém com dificuldades económicas.

Assim como em Portugal. Os apoios à compra de veículos elétricos, geridos pelo Fundo Ambiental, são tradicionalmente iguais para todos os particulares, independentemente do nível de rendimento.

Ou seja, tal como no caso espanhol, não existe uma diferenciação estrutural baseada na capacidade económica. Isso gera uma distorção evidente.

Introduzir critérios de rendimento surge como uma medida lógica, quase de senso comum. Outros países europeus já aplicam modelos mais progressivos, onde os apoios são ajustados em função da capacidade económica do candidato.

Também se sugere recuperar, e reforçar, o requisito de abate de veículos antigos. Sem esta condição, o impacto ambiental dilui-se. Com ela, garante-se que cada novo carro elétrico substitui um mais poluente. Mudança real.

Propostas para uma transição mais justa e eficaz

Para além das conclusões do estudo, o contexto atual convida a repensar o modelo. Em países como França ou Alemanha já estão a ser testados esquemas de apoio mais direcionados, incluindo leasing social de veículos elétricos ou incentivos específicos para rendimentos mais baixos.

Também começa a ganhar força o incentivo ao veículo elétrico partilhado e à eletrificação do transporte público, onde o impacto por euro investido tende a ser maior. Nem tudo passa pela propriedade individual.