Com tanta tecnologia, será que os carros podem “tomar conta” e desobedecer à vontade do condutor? Na história há exemplos. Lembra-se do cruise control preso?
Os automóveis atuais estão repletos de tecnologia e sistemas ADAS que reforçam a segurança ativa e passiva. Durante décadas, contudo, o cruise control foi uma das funcionalidades mais inovadoras, proporcionando maior conforto ao manter automaticamente a velocidade e reduzindo o cansaço nas viagens longas.
Nem sempre, contudo, tudo correu como esperado. Alguns casos mediáticos, nas últimas duas décadas, envolveram condutores que alegaram não conseguir desligar o cruise control, percorrendo dezenas ou mesmo centenas de quilómetros sem conseguir parar o veículo.
Embora as investigações não tenham comprovado falhas técnicas na maioria dos casos, estes episódios contribuíram para acelerar a evolução dos sistemas eletrónicos de segurança que equipam os automóveis modernos.
O caso do Renault Vel Satis que colocou a Europa em alerta
Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em outubro de 2004, em França. Hicham Draa, condutor de um Renault Vel Satis, contactou os serviços de emergência a partir do automóvel, alegando que o cruise control tinha ficado bloqueado.
O veículo circulava na A71, entre Clermont-Ferrand e Vierzon, a quase 200 km/h, sem que o condutor conseguisse reduzir a velocidade. Durante cerca de 150 quilómetros, foi escoltado pelas autoridades francesas, numa operação que mobilizou gendarmes, bombeiros e equipas de emergência para libertar a autoestrada e minimizar os riscos para os restantes automobilistas.
Quando o automóvel acabou por parar, o caso ganhou enorme destaque na comunicação social europeia. No entanto, a investigação técnica não encontrou qualquer falha mecânica ou eletrónica que explicasse o sucedido.
O caso do Texas que ficou gravado em vídeo
Em 2011, um caso semelhante voltou a fazer manchetes, desta vez nos Estados Unidos. Gatlin Jeter, de 21 anos, ligou para o serviço de emergência 911 (nosso 112) alegando que o cruise control do seu SUV Ford tinha ficado preso e que não conseguia reduzir a velocidade.
A polícia decidiu posicionar uma viatura à frente do automóvel e foi reduzindo gradualmente a velocidade, permitindo que o condutor travasse de forma controlada até conseguir imobilizar o veículo em segurança. Toda a operação foi gravada e rapidamente se tornou viral.
Tal como aconteceu em França, as investigações posteriores não conseguiram demonstrar a existência de um defeito de fabrico responsável pelo incidente.
Um episódio semelhante voltou a acontecer em 2024
Mesmo com automóveis muito mais sofisticados, voltou a surgir um caso mediático em 2024. Nos Estados Unidos, o condutor de um Honda Pilot alegou que o veículo acelerou até cerca de 190 km/h e que não conseguia travar nem colocar a transmissão em ponto morto.
As autoridades acompanharam o automóvel durante vários quilómetros e recorreram a uma estratégia pouco habitual, pedindo ao condutor para tocar ligeiramente na traseira da viatura policial, permitindo reduzir gradualmente a velocidade até à imobilização em segurança.
O veículo foi posteriormente apreendido para análise técnica, não tendo sido imediatamente confirmada qualquer avaria eletrónica.
Pode um carro moderno ficar “preso” em cruise control?
Os especialistas consideram que um cenário deste tipo é atualmente extremamente improvável. Mesmo nos primeiros sistemas eletrónicos de cruise control, já existiam mecanismos redundantes para cancelar automaticamente o funcionamento.
Hoje, qualquer pressão no pedal do travão desativa imediatamente o sistema. Além disso, praticamente todos os fabricantes implementam a função Brake Override, que dá prioridade absoluta ao travão sempre que o acelerador permanece ativo.
Os veículos modernos recorrem ainda a múltiplos sensores, unidades eletrónicas redundantes e sistemas permanentes de monitorização capazes de detetar comportamentos anómalos. Caso seja identificada qualquer inconsistência entre acelerador, travão, transmissão ou outros componentes, o sistema entra automaticamente em modo de segurança.
Nos modelos equipados com cruise control adaptativo e sistemas avançados de assistência à condução (ADAS), existem ainda camadas adicionais de proteção, capazes de reduzir automaticamente a velocidade ou desligar determinadas funções sempre que é detetada uma situação potencialmente perigosa.
📌 Curiosidades sobre o cruise control
• Foi inventado por um engenheiro cego. Ralph Teetor perdeu a visão aos cinco anos, mas tornou-se um dos engenheiros mais influentes da indústria automóvel, registando mais de 40 patentes.
• A ideia surgiu numa viagem de automóvel. Em 1936, Teetor reparou que o seu advogado acelerava e desacelerava involuntariamente enquanto conversava. Esse comportamento inspirou a criação de um sistema que mantivesse automaticamente uma velocidade constante.
• A patente foi apresentada em 1948. O sistema recebeu inicialmente o nome Speedostat e viria a ser patenteado em 1950.
• O primeiro automóvel a utilizá-lo foi um Chrysler. Em 1958, o Chrysler Imperial tornou-se o primeiro modelo de produção equipado com esta tecnologia, comercializada como Auto-Pilot.
• O nome “Cruise Control” surgiu um ano depois. Foi a Cadillac que, em 1959, popularizou a designação Cruise Control, nome que permanece até hoje.
• Os primeiros sistemas eram totalmente mecânicos. Muito antes da eletrónica e dos computadores de bordo, o cruise control recorria a um motor elétrico ligado ao acelerador e utilizava o cabo do velocímetro para medir a velocidade.
Casos que ajudaram a tornar os automóveis mais seguros
Embora as investigações nunca tenham conseguido comprovar de forma inequívoca que o cruise control esteve na origem dos incidentes mais mediáticos, estes casos marcaram a indústria automóvel e impulsionaram uma revisão profunda dos sistemas eletrónicos de segurança.
Atualmente, os fabricantes recorrem a múltiplos mecanismos de redundância, software muito mais avançado e funções como o Brake Override, tornando extremamente improvável que um veículo permaneça acelerado sem que o condutor consiga recuperar o controlo. Os episódios do passado acabaram, assim, por contribuir para tornar os automóveis modernos significativamente mais seguros.