Nos Estados Unidos, o estado do Massachusetts acaba de dar um passo significativo na integração de veículos elétricos na rede elétrica, à semelhança do que já vimos acontecer noutros locais. Em Portugal, também há iniciativas no currículo: a EDP já testou a tecnologia e a academia portuguesa já explorou o seu potencial económico.
Projeto-piloto no Massachusetts
As elétricas Eversource e National Grid juntaram-se à EnergyHub, à Sunrun e à The Mobility House para lançar um projeto-piloto de Vehicle-to-Grid (V2G) no estado norte-americano do Massachusetts.
Na prática, os clientes residenciais destas duas elétricas vão poder inscrever os seus veículos elétricos com capacidade V2G no ConnectedSolutions. Apesar de este programa já existir, é habitualmente usado para gerir a flexibilidade de termóstatos e baterias domésticas. Agora, a mesma lógica passa a incluir os carros elétricos.
Neste âmbito, em vez de o veículo ser apenas um consumidor de energia, passa também a poder devolvê-la à rede nos momentos de maior necessidade, ajudando a aliviar a pressão sobre o sistema elétrico.
O que é o V2G?
O conceito de Vehicle-to-Grid (V2G) transforma os veículos elétricos em algo mais do que simples meios de transporte. Passam a ser também unidades móveis de armazenamento de energia, capazes de interagir ativamente com a rede elétrica e até com a própria casa.
O que é o V2G e qual a sua lógica
O V2G permite que a energia armazenada na bateria de um carro elétrico seja devolvida à rede elétrica ou utilizada para alimentar uma habitação. Ou seja, a energia deixa de fluir apenas num sentido (da rede para o carro) e passa a ser bidirecional.
Na prática, o carro funciona como uma powerbank de grande capacidade.
Como funciona na prática
O funcionamento do V2G assenta em três elementos principais:
- Carro elétrico compatível: nem todos os veículos suportam V2G. É necessário que o sistema de gestão da bateria permita descarga controlada de energia.
- Carregador bidirecional: diferente de um carregador comum, este equipamento permite tanto carregar como descarregar energia. É ele que gere o fluxo elétrico.
- Sistema de controlo (software): um sistema inteligente decide quando carregar ou descarregar energia, com base em fatores como:
- preço da eletricidade;
- consumo da casa;
- estado da bateria;
- necessidades da rede.
Cenários de utilização
- Alimentar uma casa (V2H – Vehicle-to-Home): durante uma falha de energia, o carro pode alimentar a habitação durante várias horas ou até dias, dependendo da capacidade da bateria.
- Apoiar a rede elétrica: em momentos de pico de consumo, milhares de carros podem devolver energia à rede, ajudando a estabilizar o sistema.
- Armazenar energia renovável: o carro pode carregar quando há excesso de produção solar ou eólica (por exemplo, durante o dia) e devolver energia à noite.
Vantagens claras
- Resiliência energética: útil em apagões;
- Redução de custos: carregar quando a energia é mais barata e usar mais tarde;
- Integração de renováveis: ajuda a equilibrar produção intermitente;
- Monetização: em alguns mercados, é possível vender energia de volta à rede.
Desafios e limitações
- Infraestrutura ainda limitada;
- Regulação energética complexa;
- Impacto na bateria (embora cada vez mais controlado);
- Compatibilidade reduzida entre marcas e sistemas.
O papel no futuro energético
O V2G é visto como uma peça-chave na transição energética. Num cenário com milhões de carros elétricos, estes poderão formar uma rede distribuída de armazenamento, reduzindo a necessidade de centrais de reserva e aumentando a estabilidade da rede.
Em contextos de eventos extremos, como tempestades ou falhas massivas, poderá ser uma solução crítica para manter serviços essenciais a funcionar.
Com mais de 150 mil veículos elétricos já em circulação no estado, o potencial de armazenamento distribuído é considerável.
O programa não se fica pelos veículos particulares, estando a National Grid a testar V2G em frotas ligeiras e pesadas, incluindo autocarros escolares, enquanto a Eversource negoceia com distritos escolares uma oferta semelhante, o ConnectedSolutions+.
O projeto-piloto da EDP em Portugal
Por cá, a EDP já testou um carregador de veículos elétricos com funcionalidade V2G, capaz de fluxo bidirecional de energia. Ou seja, além de carregar o veículo da forma habitual, o carregador consegue também devolver à rede a energia armazenada na bateria do carro.
Este tipo de solução abre a porta a vários cenários de utilização como:
- Apoiar a rede de um edifício nas horas de maior consumo;
- Contribuir para a estabilidade do próprio sistema elétrico nacional.
Foi conduzido, também, o projeto europeu EV4EU, que contou com um demonstrador em São Miguel, nos Açores, onde foram testadas estratégias de V2X (conceito mais alargado, Vehicle-to-Everything, que inclui V2G).
Com uma frota de 32 veículos de diferentes modelos, foram avaliados parâmetros desde algoritmos de controlo orientados para frotas até à monitorização da qualidade de energia e à participação em serviços de rede.
EV4EU Portuguese Demonstrator, na ilha de São Miguel, nos Açores. Crédito: EV4EU
A investigação académica portuguesa
Paralelamente aos projetos-piloto, há ainda trabalho académico a decorrer em Portugal para perceber se o V2G faz sentido económico no nosso mercado elétrico.
Já em 2019, investigadores ligados ao Instituto de Sistemas e Robótica da Universidade de Coimbra tinham avaliado o potencial do V2G para o sistema elétrico nacional, considerando diferentes cenários de penetração de veículos elétricos na frota portuguesa.
Esses estudos olhavam não só para os benefícios do ponto de vista da rede, mas também para a perspetiva do utilizador, tendo em conta fatores como a degradação da bateria associada aos ciclos adicionais de carga e descarga.
Mais recentemente, investigadores do IN+ Center for Innovation, Technology & Policy Research, ligado ao Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, publicaram um estudo focado especificamente na vertente económica do V2G, com um modelo original que calcula quanto é que um proprietário de veículo elétrico poderia efetivamente ganhar ao disponibilizar a sua bateria para serviços de rede.
Resultados do estudo
O modelo tem em conta variáveis como as seguintes:
- Preço de compra e venda de eletricidade no mercado português;
- Frequência de utilização do carro;
- Número de ciclos de carga e descarga V2G;
- Custo de substituição da bateria.
Depois, aplica-se a quatro perfis distintos de utilizador de veículo elétrico.
Os resultados mostram que, a um preço de venda otimista de 0,50 €/kWh, utilizadores com uso ligeiro do carro (como um reformado ou um trabalhador que usa o veículo apenas para deslocações diárias) conseguem lucros líquidos entre 1200 euros e 1550 euros mesmo depois de pagarem uma bateria nova.
Também perfis de uso intensivo, como um motorista de Uber, beneficiam ao usar o V2G para amortizar uma substituição de bateria que já seria inevitável.
Por sua vez, a preços de venda mais baixos (0,30 € ou 0,20 €/kWh), o serviço deixa de compensar para praticamente todos os perfis, um sinal de que a viabilidade económica do V2G, em Portugal, dependerá muito das tarifas que vierem a ser praticadas.
V2G cada vez mais perto de ser um serviço amplamente real
O anúncio do Massachusetts, a par de outras iniciativas que já conhecemos anteriormente, mostra que o V2G está a sair da fase experimental para se tornar um serviço real, disponível a clientes residenciais através de projetos estruturados de resposta à procura.
Em Portugal, o caminho ainda está a ser percorrido, faltando um programa comercial acessível ao consumidor final, que remunere de forma clara quem disponibiliza a bateria do seu carro para ajudar a rede elétrica nacional.
De qualquer forma, com a frota elétrica portuguesa em crescimento constante e cada vez mais projetos-piloto a surgiram pelo mundo, é uma questão de tempo até este tipo de oferta chegar também ao mercado português.
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