Em outubro de 2024, foram contabilizadas mais de 113 mil ovelhas a pastar em 506 instalações solares nos Estados Unidos da América (EUA), segundo um relatório recente. Na Europa, incluindo Portugal, já existem projetos em funcionamento e novas iniciativas em desenvolvimento daquilo a que se chama agrovoltaica.
O que fazem as ovelhas numa central solar?
A presença de ovelhas em centrais fotovoltaicas está relacionada com a gestão da vegetação. Os animais alimentam-se da erva que cresce entre os painéis, reduzindo a necessidade de cortar a vegetação com máquinas.
Para os produtores de energia, pode representar uma alternativa aos métodos convencionais de manutenção. Para os agricultores, significa utilizar terrenos que já estão ocupados por uma instalação fotovoltaica para manter uma atividade pecuária.
O princípio enquadra-se no conceito da agrovoltaica.
Agricultura e produção solar no mesmo terreno
A agrovoltaica consiste em combinar a produção de energia fotovoltaica com uma atividade agrícola na mesma área. O modelo pode assumir diferentes formas, desde o pastoreio de animais até à instalação de painéis sobre culturas, pomares ou vinhas.
Relativamente à configuração dos sistemas, que é um dos elementos mais importantes, os painéis podem ser:
- Colocados em estruturas elevadas;
- Instalados verticalmente;
- Dispostos em filas com maior espaçamento;
- Utilizar sistemas móveis que permitem alterar o nível de sombreamento sobre as culturas.
A intenção não é apenas instalar painéis num terreno agrícola, mas integrar a atividade agrícola na utilização da área.
O projeto “Agri-PV Obstbau”, na Alemanha, a testar diversas tecnologias de módulos solares (à esquerda) e sistemas convencionais de proteção de cultivos (à direita), em 2021. Crédito: Fraunhofer ISEIn
As vantagens da sombra dos painéis solares
Uma das questões estudadas pela investigação é o efeito do sombreamento parcial nas culturas.
Em determinadas condições, a redução da radiação solar pode diminuir a temperatura das plantas e do solo, reduzir a evaporação e contribuir para uma menor necessidade de água. Este efeito pode ser relevante em regiões sujeitas a temperaturas elevadas e períodos de seca.
No entanto, os resultados não são iguais para todas as culturas. Algumas beneficiam de sombra parcial, enquanto outras podem apresentar uma redução da produtividade quando recebem menos radiação solar.
A orientação dos painéis, a distância entre módulos, o clima e o tipo de cultura são fatores determinantes.
Por isso, atualmente, a investigação não procura apenas saber se a agrovoltaica funciona, mas em que condições e para que culturas funciona melhor.
🌍 Projetos pela Europa
A agrovoltaica já ultrapassou a fase exclusivamente experimental em alguns países europeus.
- Em França
Em Brouchy, no norte de França, existe uma instalação de 2,9 Megawatt-pico (MWp) que entrou em funcionamento em 2023. Os painéis estão instalados numa estrutura elevada e podem ser movimentados para controlar o sombreamento nas culturas.
O projeto procura avaliar simultaneamente a produção de eletricidade e os efeitos da instalação sobre as culturas, nomeadamente em situações de temperaturas elevadas e stress hídrico.
França também criou um enquadramento específico para a agrovoltaica e mantém um observatório nacional através da ADEME, a agência francesa para a transição ecológica.
Os dados do observatório mostram a existência de centenas de instalações e um número muito superior de projetos em diferentes fases de desenvolvimento.
Importa ressalvar que os dados incluem instalações em diferentes estados e não representam a capacidade agrovoltaica comercial em operação.
- Na Alemanha
A Alemanha tem uma das experiências mais longas na investigação de agrovoltaica na Europa.
Em Gelsdorf, existe desde 2021 uma instalação experimental sobre um pomar de macieiras. O projeto do Fraunhofer ISE continua em investigação e tem conclusão prevista para dezembro de 2026.
Outro exemplo está em Bedburg, onde a empresa RWE opera desde 2024 uma instalação de 3,2 MWp. O projeto testa diferentes configurações, incluindo painéis verticais, sistemas móveis e estruturas elevadas.
A investigação inclui diferentes culturas agrícolas e deverá prolongar-se durante pelo menos cinco anos. O objetivo é comparar os vários sistemas e perceber como podem ser integrados nas práticas agrícolas existentes.
- Em Itália
Itália também está a apostar na agrovoltaica através de mecanismos específicos de apoio.
Segundo a IEA PVPS, o primeiro concurso italiano dedicado à agrovoltaica atribuiu projetos correspondentes a cerca de 1,5 Gigawatt-pico (GWp), distribuídos por 540 projetos.
O número mostra uma mudança de escala. A agrovoltaica começa a deixar de estar limitada a pequenas instalações experimentais e passa a integrar projetos de dimensão industrial.
Situação da agrovoltaica em Portugal
Sem um regime jurídico autónomo e completo para esta área, Portugal tem menos projetos de grande dimensão, mas já existem iniciativas de investigação e desenvolvimento.
A Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa mantém a Horta Solar, um projeto que combina produção agrícola e fotovoltaica e que funciona como laboratório vivo para estudar esta tecnologia. Entre os temas analisados estão os efeitos do sombreamento nas culturas e nas necessidades de irrigação.
Em 2024, investigadores portugueses apresentaram um estudo para a implementação de um projeto-piloto agrovoltaico no Alentejo, analisando diferentes configurações de painéis fotovoltaicos e sistemas de cultivo.
A viticultura é outra área de investigação. Trabalhos realizados em Portugal têm analisado o efeito da agrovoltaica em castas como Encruzado e Viosinho, procurando perceber se a sombra parcial pode ajudar a lidar com temperaturas elevadas e alterações no ciclo de maturação.
Em 2026, surgiu também o Agrivoltec, um projeto apoiado pelo COMPETE 2030 que pretende desenvolver soluções agrovoltaicas adaptadas à realidade portuguesa, com especial atenção à viticultura.
Portugal participa ainda no projeto europeu AgroSOL, que decorre até 2028 e prevê cinco projetos-piloto no nosso país, Espanha e França, com o objetivo de estudar diferentes formas de integração entre produção agrícola e energia solar.
Leia também: