Durante anos, a autonomia foi apontada como o principal obstáculo aos automóveis elétricos. Hoje, com muitos modelos capazes de percorrer 500, 600 ou mais quilómetros, a discussão está progressivamente a mudar para outro problema: quanto tempo é necessário esperar para voltar à estrada. A BYD mostra que carregar em 9 minutos será a realidade.
Quase já não restam argumentos para os mais “resistentes” à transição para os carros elétricos. Se, até há pouco tempo, o tempo de carregamento era uma das principais preocupações, a BYD acredita ter encontrado uma resposta capaz de praticamente eliminar esse problema.
A fabricante chinesa acaba de inaugurar a sua 10.000.ª estação Flash Charging na China, uma rede preparada para tirar partido de carregamentos que podem atingir uns impressionantes 1500 kW de potência.
E a empresa não pretende ficar por aqui. Até ao final de 2026, quer chegar às 20.000 estações.
10.000 estações e 332 cidades
O marco foi atingido a 28 de agosto, com a inauguração da 10.000.ª estação Flash Charging da BYD, localizada em Longhua, Shenzhen. Segundo a fabricante, a rede já está presente em 332 cidades chinesas.
A densidade começa a ser particularmente interessante nos grandes centros urbanos. Em cidades como Shenzhen, Xangai, Hangzhou, Xi’an e Chongqing, a BYD afirma existir, em média, uma estação Flash Charging a cada três quilómetros nas zonas urbanas.
Nas cidades chinesas de terceiro e quarto nível, a distância média anunciada é inferior a quatro quilómetros. A intenção é clara: fazer com que encontrar um carregador rápido comece a ser tão simples como encontrar uma bomba de combustível.
10% to 97% in 9 minutes 😳⚡️ This is BYD Flash Charge. When are we getting this kind of charging speed in Nigeria? pic.twitter.com/LDGisjA0n7
— Eze Miracle (@nolimitmiracle) August 30, 2026
O número impressionante: até 1500 kW
Por detrás desta rede está uma nova geração da tecnologia Flash Charging desenvolvida pelo grupo BYD. O sistema consegue disponibilizar até 1500 kW, ou 1,5 MW, através de um único conector, embora este valor represente a capacidade máxima do sistema e não uma potência constante durante todo o carregamento.
Para termos uma referência, um posto ultrarrápido de 350 kW, já considerado extremamente potente nas atuais redes europeias, disponibiliza menos de um quarto desta potência máxima.
Mas construir o carregador é apenas metade do problema. A bateria tem de conseguir receber toda esta energia sem comprometer a segurança, temperatura ou longevidade.
Blade Battery 2.0 é a outra metade da equação
É precisamente para isso que foi desenvolvida a Blade Battery 2.0, a segunda geração da bateria LFP da BYD. A empresa afirma ter trabalhado durante seis anos nesta tecnologia, procurando resolver um dos grandes compromissos existentes nas baterias: aumentar simultaneamente a densidade energética e a capacidade de carregamento rápido.
A nova geração mantém a química LFP, fosfato de ferro e lítio, mas introduz melhorias significativas no transporte dos iões dentro das células.
O resultado são velocidades de carregamento que começam a aproximar o automóvel elétrico do tempo necessário para abastecer um carro convencional.
Dos 10% aos 70% em 5 minutos
Os números apresentados pela BYD são impressionantes.
Com a Blade Battery 2.0 e um Flash Charger compatível, a fabricante anuncia:
- 10% → 70%: 5 minutos
- 10% → 97%: 9 minutos
Mesmo em condições extremas, com uma temperatura ambiente de 30 graus negativos, a BYD afirma conseguir passar dos 20% aos 97% em aproximadamente 12 minutos.
É daqui que surge a expressão utilizada pela própria marca: “Ready in 5, Full in 9, Cold Add 3“.
A tecnologia chama a atenção, mas a dimensão da infraestrutura talvez seja a parte mais relevante desta história. A BYD apresentou esta nova geração da Blade Battery e do Flash Charging em março de 2026. Cerca de seis meses depois, anuncia já 10.000 estações na China. Agora pretende duplicar o número. O objetivo oficial é chegar às 20.000 estações Flash Charging chinesas até ao final de 2026.
Naturalmente, estes valores dependem do automóvel, bateria, temperatura, estado de carga e das condições da infraestrutura. Não significa que qualquer BYD atualmente em circulação possa simplesmente ligar-se a um destes carregadores e receber 1500 kW.
É necessária uma nova geração de veículos preparada especificamente para estas potências.
1,5 MW também cria um enorme problema
Existe, contudo, um pormenor importante que muitas vezes fica esquecido quando se fala destas potências. Um carregador capaz de entregar 1,5 MW a um único automóvel representa uma carga gigantesca para a rede elétrica.
Agora imaginemos uma estação com vários automóveis a carregar simultaneamente. Dez veículos a receberem 1,5 MW representariam teoricamente uma potência instantânea de 15 MW.
É precisamente por isso que a evolução das estações de carregamento não dependerá apenas de carregadores mais potentes. Armazenamento estacionário através de grandes baterias, gestão inteligente da energia e ligações de elevada capacidade à rede elétrica serão fundamentais.
A própria estratégia da BYD contempla a integração das estações Flash Charging com sistemas de armazenamento de energia, reduzindo a dependência da capacidade instantânea disponível na rede local.
E a Europa?
É aqui que esta história começa a ficar particularmente interessante. O Flash Charging não ficará limitado à China. A BYD já confirmou planos para instalar 6000 estações Flash Charging fora da China, das quais 3000 serão na Europa, durante os 12 meses seguintes ao anúncio da expansão internacional.
A tecnologia chegará inicialmente através da DENZA, marca premium do grupo BYD. O Z9GT será um dos primeiros automóveis europeus preparados para utilizar a Blade Battery 2.0 e o Flash Charging.
Aliás, a expansão europeia já começou: a BYD inaugurou em junho uma estação Flash Charging em Bolonha, Itália. Há, contudo, uma diferença técnica importante.
A BYD refere os 1500 kW através de um único conector especificamente para a configuração utilizada no mercado chinês, pelo que não devemos assumir que todas as estações europeias disponibilizarão exatamente a mesma potência.
Se os nove minutos anunciados pela BYD forem reproduzíveis em utilização real e esta infraestrutura conseguir atingir uma dimensão significativa fora da China, um dos argumentos mais persistentes contra os automóveis elétricos poderá perder rapidamente importância.