China escava primeiro túnel de ferrovia para chegar à Europa sem passar pela Rússia

China escava primeiro túnel de ferrovia para chegar à Europa sem passar pela Rússia

Tem apenas 209,6 metros, mas faz parte de um projeto com ambições continentais. A ferrovia China – Quirguistão – Uzbequistão ultrapassou uma nova etapa de construção e poderá abrir mais uma alternativa para transportar mercadorias entre a China e a Europa.

Foi concluída a escavação do primeiro túnel do troço quirguiz da ferrovia China – Quirguistão – Uzbequistão, conhecida pela sigla CKU. O anúncio foi divulgado a 5 de setembro pela Xinhua, com base em informações da empresa responsável pelo projeto. Trata-se do Kosh Dobo Norte n.º 2, com 209,6 metros.

É um avanço concreto, mas há uma distinção essencial: a passagem foi escavada de uma ponta à outra. Isso não significa que o túnel esteja equipado para receber comboios, nem que a linha tenha entrado em funcionamento.

Por onde vai passar esta ferrovia da China?

O percurso liga Kashgar, na região chinesa de Xinjiang, a Andijan, no Uzbequistão, atravessando o Quirguistão por Torugart, Makmal e Jalal-Abad. Este é o traçado identificado no acordo entre os três países, assinado em junho de 2024.

Segundo a atualização mais recente da Xinhua, a linha terá mais de 500 quilómetros, dos quais 304,84 quilómetros no Quirguistão. A mesma informação dá conta de obras iniciadas em 27 túneis, 43 pontes e 88 secções de plataforma ferroviária, além de trabalhos em 20 estações.

Estes números descrevem frentes de construção, não correspondem a infraestruturas já concluídas.

Como pode chegar à Europa sem passar pela Rússia?

A CKU termina no Uzbequistão. A ligação à Europa dependerá da articulação com outras redes e corredores de transporte.

Uma possibilidade passa pelo Turquemenistão, Irão e Turquia, seguindo depois para a rede europeia. Essa configuração foi identificada numa avaliação do programa CAREC, publicada pelo Banco Asiático de Desenvolvimento em 2022.

É uma continuação possível do corredor, não uma extensão da obra CKU até à Europa nem um serviço direto já disponível.

A relevância estratégica está na diversificação. Criar outra ligação entre a China e a Ásia Central pode dar aos operadores mais opções para construir itinerários que dispensem a passagem pelo território russo. O projeto é enquadrado na iniciativa chinesa Faixa e Rota.

Quanto tempo poderá poupar?

A Presidência do Uzbequistão divulgou uma projeção de até 15 milhões de toneladas de mercadorias por ano e uma redução de sete dias nas entregas. São estimativas para o corredor, não resultados medidos em exploração comercial.

Para quem acompanha tecnologia, o interesse é fácil de perceber: uma alternativa logística pode ser relevante para transportar componentes, equipamentos e outros produtos entre centros de produção e mercados de destino. Isso, por si só, não permite prometer encomendas mais rápidas ou preços mais baixos para o consumidor.

Há ainda desafios de engenharia. Uma análise publicada em julho destaca o relevo montanhoso do Quirguistão e os riscos sísmicos da região, que tornam a construção particularmente exigente.

O túnel agora escavado é, por isso, um marco numa obra que continua em curso. O impacto comercial dependerá da conclusão da linha e da capacidade de transformar as ligações entre países num serviço regular, competitivo e previsível.