O petróleo não está em máximos. Porque continua o gasóleo a subir?

O petróleo não está em máximos. Porque continua o gasóleo a subir?

Olhar para a cotação do barril de petróleo já não chega para perceber o preço do gasóleo. O combustível que chega aos postos foi refinado, transportado e vendido num mercado próprio. E é nesse mercado que a pressão se tornou particularmente forte.

Em Portugal, os números desta semana mostram a diferença. Para o período de 14 a 20 de setembro, a ERSE calcula um “preço eficiente” de 2,239 euros por litro para o gasóleo simples, mais 2,3% do que na semana anterior.

No mesmo intervalo, a cotação internacional do gasóleo refinado subiu 3,9%, enquanto a da gasolina desceu 3,5%.

O preço eficiente é uma referência calculada pelo regulador a partir dos custos de abastecimento e dos impostos. Não é o preço que todos os condutores estão a pagar, isto é, cada posto define o seu valor e pode aplicar descontos.

A média mensal do Brent atingiu 117,29 dólares por barril em abril e recuou para 91,08 dólares em agosto. Mas a evolução do crude, por si só, não explica o preço do gasóleo.

Evolução do preço médio mensal do petróleo Brent entre setembro de 2025 e agosto de 2026, em dólares por barril. Fonte: U.S. Energy Information Administration (EIA).

A diferença está no combustível já refinado

Entre o preço do petróleo bruto e o preço do gasóleo existe uma diferença que os mercados usam para acompanhar a pressão sobre a refinação. Quando o produto final se torna escasso ou muito procurado, essa diferença pode aumentar, mesmo sem o crude atingir novos máximos.

Foi o que aconteceu no início de setembro. Segundo dados da S&P Global Energy, o diferencial do gasóleo no mercado de Amesterdão, Roterdão e Antuérpia atingiu 98 dólares por barril a 1 de setembro, um máximo na série acompanhada pela empresa. A média tinha sido de 44,75 dólares em junho.

Diferença entre o preço do gasóleo refinado e o do petróleo bruto de referência no mercado ARA, em dólares por barril. Junho a agosto são médias mensais; 1 de setembro é o valor de um único dia. Fonte: Platts/S&P Global Energy.

Segundo a S&P Global Energy, a subida resulta de vários problemas em simultâneo: perturbações no abastecimento a partir do Médio Oriente, restrições às exportações russas e reservas de gasóleo muito reduzidas na costa leste dos Estados Unidos. A Europa, que importa gasóleo, concorre com outros compradores por carregamentos disponíveis.

Há uma distinção importante: este diferencial não representa o lucro líquido de uma refinaria. Produção, transporte e outros custos continuam a contar. Mostra, isso sim, que o gasóleo refinado se tornou muito mais caro em relação à matéria-prima.

E quando chega a descida ao posto?

Nem uma queda do crude garante uma descida imediata no abastecimento. O Banco Central Europeu explica que o preço final também incorpora refinação, distribuição e impostos, e que a transmissão das alterações de custo pode levar tempo.

É por isso que, para perceber a próxima evolução do gasóleo em Portugal, vale a pena acompanhar a cotação internacional do combustível refinado, usada pela ERSE nos seus cálculos semanais, além do preço do Brent. É esse desfasamento que ajuda a explicar por que razão o gasóleo continua a pesar na carteira mesmo quando o petróleo não bate recordes.