Itália começou esta segunda-feira a aplicar limites aos preços dos combustíveis em milhares de postos: na rede Eni e Enilive, a gasolina fica limitada a 1,99 euros por litro e o gasóleo a 2,19 euros, em regime self-service. O Governo de Giorgia Meloni procura agora convencer a Q8 a aderir à contenção dos preços, o que poderá levar a iniciativa a abranger mais de metade da rede de abastecimento do país.
Os automobilistas italianos começaram esta segunda-feira a sentir nas bombas uma nova resposta à forte subida dos preços dos combustíveis.
A Eni colocou em vigor um teto de 1,99 euros por litro para a gasolina e de 2,19 euros para o gasóleo vendidos em regime self-service nas estações Eni e Enilive.
A medida surge em simultâneo com alterações no desconto fiscal aplicado ao gasóleo e com negociações do Governo italiano junto de outras grandes petrolíferas para tentar conter os preços.
Os primeiros efeitos já começaram a ser visíveis. Em vários postos de Roma, os novos valores estavam aplicados durante a manhã de segunda-feira e, embora não tenham sido registadas filas significativas no Lácio, Lombardia e Toscana, pelo menos uma estação em Nápoles chegou a colocar a indicação de “esgotado” depois de vender todo o combustível disponível nos depósitos.
Preços médios continuam acima dos dois euros
O teto da Eni não significa, porém, que os combustíveis tenham passado a custar aqueles valores em todo o país.
De acordo com os dados do Observatório dos Preços dos Combustíveis do Ministério das Empresas e do Made in Italy, citados pela Euronews, a gasolina self-service apresentava esta segunda-feira um preço médio nacional de 2,152 euros por litro, ligeiramente abaixo dos 2,159 euros registados no domingo.
No gasóleo, a média passou de 2,377 para 2,369 euros por litro.
Nas autoestradas, os preços são ainda superiores: 2,214 euros para a gasolina e 2,420 euros para o gasóleo.
Alguns combustíveis premium e o gasóleo HVO, produzido a partir de matérias-primas renováveis, aproximam-se mesmo dos três euros por litro em determinadas estações de autoestrada.
Governo quer chegar a mais de metade dos postos
A estratégia do Executivo italiano passa agora por aumentar significativamente o número de estações abrangidas por iniciativas de contenção.
A SOCAR, petrolífera estatal do Azerbaijão que adquiriu a rede da Italiana Petroli, anunciou também que iria moderar os preços nos seus postos, embora deixando a definição dos valores concretos aos distribuidores locais.
A decisão levou Giorgia Meloni a agradecer publicamente ao Presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev.
O próximo alvo das negociações é a Q8.
Segundo fontes governamentais citadas por agências italianas e pela Euronews, o Governo estabeleceu contactos com o Kuwait, país proprietário da Kuwait Petroleum International, que opera a marca Q8, procurando conseguir um compromisso semelhante de contenção dos preços.
A dimensão da rede explica a importância das negociações.
A Q8 dispõe de cerca de 2.900 postos em Itália. Juntando-os aos quase quatro mil da Eni e aos cerca de 4.500 das marcas controladas pela SOCAR, a cobertura poderá chegar a aproximadamente 52% da rede nacional.
Ou seja, mais de metade dos postos italianos poderá ficar abrangida por alguma forma de contenção dos preços.
Descida ainda é pequena na média nacional
Apesar do impacto do anúncio, os dados disponíveis mostram que a redução efetivamente sentida no conjunto do mercado ainda é limitada.
Segundo medições da publicação especializada Staffetta Quotidiana, as maiores quedas foram registadas em Friuli Venezia Giulia, onde o gasóleo baixou em média 2,6 cêntimos por litro e a gasolina 2,4 cêntimos.
No Lácio, as descidas foram de 1,5 e 1,3 cêntimos, respetivamente, enquanto em Abruzzo atingiram 1,4 cêntimos no gasóleo e 1,1 cêntimos na gasolina.
A dimensão da redução varia, portanto, consoante a região e a presença das diferentes redes de abastecimento.
Pequenos operadores temem ficar em desvantagem
A estratégia do Governo e das grandes petrolíferas não reúne, contudo, consenso dentro do próprio setor.
Os operadores mais pequenos receiam não conseguir acompanhar os preços praticados pelos grandes grupos.
A diferença está na estrutura do negócio: enquanto algumas das maiores companhias participam também na produção e refinação dos combustíveis, muitos distribuidores independentes têm de comprar primeiro o produto para depois o revender, dispondo de menor margem para absorver uma redução dos preços.
A Assopetroli-Assoenergia, que representa operadores privados, reuniu esta segunda-feira para avaliar as consequências da iniciativa da Eni sobre a concorrência.
A associação defende que um eventual teto deve chegar também aos preços de fornecimento dos combustíveis, de forma a evitar aquilo que considera poder transformar-se numa distorção do mercado.
Agricultores levam tratores para a estrada
Para agricultores e transportadores, entretanto, baixar alguns cêntimos não chega.
Na Sicília, um grupo de agricultores levou tratores para uma estrada nacional na província de Caltanissetta em protesto contra a subida dos combustíveis e dos custos de produção.
“Estamos cansados, já não aguentamos mais”, afirmaram produtores que participaram no protesto convocado pelo sindicato Agrisat, citado pela Euronews.
Os agricultores argumentam que uma redução de poucos cêntimos no gasóleo é insuficiente perante as centenas de euros que dizem gastar diariamente para manter máquinas e equipamentos em funcionamento.
Também os transportadores rodoviários sicilianos anunciaram uma paralisação entre 16 e 20 de outubro.
O Comité de Transportadores Sicilianos ameaça não movimentar semirreboques nos portos da ilha durante esse período, alegando não ter recebido uma resposta do Governo para aquilo que considera ser um problema estrutural provocado pela subida dos combustíveis.
O teto aplicado pela Eni pode, assim, representar um alívio imediato para alguns automobilistas italianos. Mas a batalha do Governo é agora outra: convencer um número suficiente de petrolíferas a acompanhar a iniciativa para que a redução deixe de ser uma exceção e comece a ter impacto significativo no preço médio pago em Itália.