A França pós-Macron começa a desenhar-se hoje? Especialista revela as pistas a seguir nestas eleições para perceber 2027

Marco Lisi, professor da Universidade Nova de Lisboa, explicou à 'Executive Digest' como ler os resultados das eleições

A França pós-Macron começa a desenhar-se hoje? Especialista revela as pistas a seguir nestas eleições para perceber 2027

Emmanuel Macron não estará no boletim de voto quando os franceses escolherem o próximo Presidente da República, em 2027. Pela primeira vez desde 2017, França terá de decidir quem ocupa o Eliseu sem o homem que desfez o tradicional confronto entre esquerda e direita, construiu um novo espaço político ao centro e venceu duas eleições presidenciais consecutivas.

Faltam ainda cerca de sete meses para essa escolha. Mas algumas das pistas sobre a França política que ficará depois de Macron podem surgir já este domingo.

França renova metade dos 348 lugares do Senado. Não são os franceses que escolhem diretamente os senadores: a decisão cabe a um colégio de grandes eleitores constituído em 95% por presidentes de câmara, adjuntos e membros dos conselhos municipais. Estão em disputa 178 lugares.

À primeira vista, dificilmente seria esta a eleição escolhida para antecipar umas presidenciais. E Marco Lisi, professor e investigador na Universidade Nova de Lisboa, deixa desde logo um aviso à ‘Executive Digest’: seria um erro fazê-lo.

“Estas eleições dizem-nos alguma coisa sobre 2027, mas sobretudo sobre a implantação territorial e a capacidade organizativa dos partidos, não sobre as intenções de voto dos franceses nas presidenciais.”

As senatoriais funcionam, explica, quase como um “terceiro turno” das municipais de março. Permitem perceber quem tem redes locais, quem consegue recrutar elites, quem constrói alianças e quais os partidos que conseguem transformar votos em poder institucional.

“A leitura mais enganadora seria tratar estas eleições como uma espécie de sondagem presidencial.”

O eleitorado é diferente, apenas metade do Senado é renovada e as regras favorecem partidos com redes locais consolidadas e candidatos conhecidos.

Mas isso não significa que 2027 esteja ausente.

“As senatoriais podem revelar quem está melhor organizado para 2027; dificilmente revelam em quem os franceses votarão em 2027.”

O RN procura agora conquistar aquilo que as sondagens não medem

O primeiro grande teste estará no Rassemblement National (RN).

Não porque o número de senadores permita antecipar a votação de Marine Le Pen nas presidenciais, mas porque pode responder a uma questão diferente: o partido já demonstrou que consegue mobilizar milhões de eleitores, mas até onde conseguiu transformar essa força nacional em implantação territorial e poder institucional?

Marco Lisi começa por afastar uma caracterização que considera ultrapassada.

“Eu acho que o RN já há muito deixou de ser um ‘partido de protesto’.”

Para o investigador, trata-se hoje de um partido “muito institucionalizado e bem integrado no contexto institucional”, com forte representação parlamentar, implantação territorial e uma organização típica dos partidos de massas.

No Senado, contudo, continua longe do peso que alcançou noutras instituições. Os seus três senadores integram atualmente o conjunto de quatro membros não inscritos em qualquer grupo político.

E há um número que Marco Lisi estará a acompanhar: dez.

É o limiar necessário para que o RN consiga constituir, eventualmente com a UDR, um grupo próprio no Senado.

“Um grupo dar-lhe-ia mais tempo de palavra, presença nas instâncias do Senado e maior capacidade de intervenção parlamentar. Seria, sobretudo, um símbolo poderoso de normalização institucional.”

Mas chegar aos dez pode nem sequer ser o indicador mais importante.

“Eu procuraria também um segundo indicador: onde esses senadores são eleitos.”

Se surgirem não apenas nos bastiões do Norte e Sudeste, mas graças ao apoio de grandes eleitores exteriores ao partido, considera Lisi, estará a acontecer algo mais profundo: o RN estará a demonstrar capacidade para construir redes e alianças entre as próprias elites políticas locais.

É uma dimensão que uma sondagem não consegue medir.

Em 2023, recorda o especialista, o RN conseguiu eleger um senador em Seine-et-Marne apesar de não ter então qualquer presidente de câmara no departamento. O resultado sugeriu que alguns grandes eleitores sem ligação formal ao partido estavam já disponíveis para votar num candidato do RN.

É esse movimento que Lisi procurará novamente no domingo.

“Votos de autarcas independentes ou da direita tradicional no RN seriam, institucionalmente, um sinal particularmente importante: significariam que a normalização deixou de ocorrer apenas entre eleitores e começou também a penetrar nas elites políticas locais.”

E resume a diferença numa frase: “Uma sondagem mede disponibilidade para votar no RN; uma senatorial pode revelar disponibilidade para cooperar politicamente com ele.”

A direita perdeu eleitores, mas não perdeu o território

Se o problema do RN é transformar a força eleitoral nacional em implantação institucional, Les Républicains (LR) enfrentam quase a situação inversa.

A direita tradicional francesa conserva uma infraestrutura territorial muito superior ao peso que atualmente demonstra nas disputas nacionais.

“O paradoxo é real”, reconhece Marco Lisi.

“Les Républicains continuam a dispor de uma infraestrutura territorial muito mais forte do que o seu peso eleitoral nacional faria supor.”

O Senado é provavelmente a melhor demonstração dessa diferença. LR continua a ser o maior grupo da câmara alta, com 131 senadores, bastante à frente dos 64 do grupo Socialista, Ecologista e Republicano e dos 59 da Union Centriste.

A rede de autarcas, senadores, quadros partidários e figuras locais continua, portanto, a existir.

O problema aparece quando essa máquina precisa de disputar umas presidenciais.

Parte do antigo eleitorado nacional da direita deslocou-se para o RN; outra parte foi atraída pelo espaço centrista criado por Macron. Daí ser possível encontrar bastiões tradicionais de LR que depois registam fortes votações no RN em eleições presidenciais ou legislativas.

“Ter uma rede territorial não significa automaticamente conseguir convertê-la em votos presidenciais”, explica Lisi.

Mas essa rede continua a fornecer candidatos, militantes, notoriedade e capacidade de mobilização.

“LR está muito longe de ter desaparecido enquanto organização política; a verdadeira questão é se consegue transformar novamente o seu capital territorial em capital eleitoral nacional.”

É uma das incógnitas que ficará para 2027: quem conseguirá reunir eleitoralmente as diferentes direitas francesas?

A grande incógnita: existe macronismo sem Macron?

Se há uma força política cuja existência será verdadeiramente testada em 2027, é aquela que Emmanuel Macron construiu em seu redor.

O presidente não poderá voltar a candidatar-se e, pela primeira vez desde a sua chegada ao Eliseu, o centro terá de provar que consegue sobreviver eleitoralmente sem ele.

As senatoriais oferecem uma primeira oportunidade para procurar a resposta.

“Até agora, o macronismo foi sobretudo uma força construída de cima para baixo, muito dependente da eleição presidencial e com uma implantação territorial relativamente fraca”, considera Marco Lisi.

As municipais de março voltaram a expor essa fragilidade. Segundo o investigador, o Renaissance teve dificuldades em afirmar-se autonomamente e vários dos seus melhores resultados dependeram de candidatos integrados em coligações mais amplas de centro e centro-direita.

Por isso, Lisi não estará simplesmente a contar quantos senadores consegue eleger o partido de Macron.

O indicador será mais amplo: perceber se o espaço formado por Renaissance, MoDem e Horizons consegue conservar influência, eleger candidatos para além de alguns bastiões pessoais e continuar relevante para os equilíbrios políticos no Senado.

“Um resultado estável, acompanhado pela capacidade de eleger candidatos fora de alguns bastiões pessoais, sugeriria que o centro criou redes próprias que podem sobreviver a Macron.”

O inverso também deixaria uma mensagem para 2027.

Perdas significativas de lugares, desaparecimento de listas em vários departamentos ou uma dependência crescente de acordos com LR poderiam indicar que o espaço construído por Macron começa a regressar às famílias políticas de onde recrutou grande parte dos seus quadros.

“O verdadeiro teste não é saber se o macronismo sobrevive a Macron como marca, mas se o espaço político que ele criou consegue sobreviver como organização autónoma.”

E essa questão surge num momento em que, sublinha Lisi, já é visível a competição entre Gabriel Attal e Édouard Philippe pela liderança desse espaço na corrida de 2027.

A esquerda pode valer menos do que a soma dos seus votos

À esquerda, as senatoriais podem produzir um resultado aparentemente contraditório: socialistas, ecologistas e comunistas podem sair reforçados e, mesmo assim, não ficar mais próximos de resolver o seu principal problema presidencial.

Quem consegue juntar esse eleitorado em 2027?

“O sistema presidencial francês penaliza particularmente a fragmentação, porque não basta ter uma esquerda forte em termos agregados: é necessário colocar um candidato entre os dois primeiros na primeira volta”, explica Marco Lisi.

A relação entre o Partido Socialista e La France insoumise continua profundamente competitiva e as diferentes forças ainda não resolveram a questão da candidatura presidencial.

Por isso, um bom resultado nas senatoriais provaria que a esquerda mantém eleitos, redes locais e capacidade institucional. Não provaria que consegue apresentar uma solução comum para o Eliseu.

Pode até acentuar aquilo que Lisi descreve como o contraste entre “uma esquerda territorialmente resistente e uma esquerda nacionalmente fragmentada”.

E numa eleição presidencial essa fragmentação tem consequências.

“A esquerda pode efetivamente valer menos do que a soma dos seus votos: não por falta de eleitorado, mas porque a dispersão entre várias candidaturas pode impedir qualquer uma delas de chegar à segunda volta.”

A fotografia atual ajuda a perceber a dimensão do problema. Na mais recente vaga da Enquête Électorale Française, realizada pela Ipsos entre 3 e 9 de setembro junto de 13.060 eleitores inscritos, Marine Le Pen surge entre 33% e 35% das intenções de voto nas diferentes configurações testadas. Édouard Philippe oscila entre 14% e 21%, Jean-Luc Mélenchon entre 15,5% e 17% e Raphaël Glucksmann entre 11,5% e 13,5%. A própria Ipsos apresenta estes números como uma medição das atuais relações de força, a sete meses da eleição, e não como uma previsão do resultado.

E se ganhar o Eliseu já não chegar para governar?

É depois de olhar para RN, direita, centro e esquerda que Marco Lisi introduz talvez a questão mais profunda de toda a entrevista.

Podemos chegar a 2027 concentrados em saber quem sucederá a Emmanuel Macron e descobrir depois que essa era apenas metade do problema.

“A questão da governabilidade pode ser ainda mais importante do que a própria presidencial.”

Durante décadas, explica o investigador, a V República funcionou em torno do chamado “facto maioritário”: a eleição presidencial era normalmente seguida por uma maioria parlamentar capaz de sustentar o novo Presidente.

Esse mecanismo começou a falhar em 2022 e, na leitura de Lisi, “colapsou claramente depois das legislativas de 2024”.

O que França atravessa pode, portanto, ser mais profundo do que uma dificuldade conjuntural do final da presidência de Macron.

“Eu tenderia a falar menos de uma crise passageira e mais de uma transformação estrutural do sistema partidário, que a Constituição da V República tem dificuldade em acomodar.”

França passou de uma competição dominada por dois grandes blocos para um sistema muito mais fragmentado, sem desenvolver simultaneamente uma cultura consolidada de coligações parlamentares.

As instituições, porém, continuam profundamente presidencializadas.

“Todos procuram ganhar o Eliseu, mas isso já não garante capacidade para controlar a Assembleia Nacional.”

E é aí que surge um cenário particularmente difícil para quem vencer em 2027.

“Um novo presidente pode ser eleito com uma forte legitimidade pessoal e descobrir poucas semanas depois que não dispõe de maioria parlamentar.”

Teria então de negociar permanentemente, procurar maiorias variáveis ou enfrentar novos bloqueios entre o Eliseu e a Assembleia Nacional.

“2027 poderá testar não apenas quem consegue ganhar a Presidência, mas se a V República ainda consegue transformar uma vitória presidencial numa maioria capaz de governar.”

Se a próxima eleição voltar a produzir uma Assembleia fragmentada, acrescenta, tornar-se-á muito mais difícil explicar a situação como um simples acidente do ciclo Macron.

“Eu diria que estamos num impasse ou crise estrutural.”

Há um resultado no domingo que faria Marco Lisi rever a sua leitura

No final da entrevista, a ‘Executive Digest’ pediu ao especialista que identificasse o resultado capaz de o surpreender verdadeiramente.

A resposta regressa ao Rassemblement National.

Não seria simplesmente atingir os dez senadores necessários para formar um grupo próprio.

“O resultado que mais me faria rever a leitura atual seria um avanço do RN claramente superior ao necessário para formar um grupo próprio no Senado, sobretudo se esse avanço dependesse de votos de grandes eleitores exteriores ao partido.”

A razão ajuda a explicar por que motivo estas eleições interessam para muito além dos 178 lugares em disputa.

“Isso significaria que o RN não está apenas a crescer eleitoralmente: está a penetrar num dos espaços mais protegidos dos partidos tradicionais, o das elites políticas locais.”

E quando o olhar se desloca definitivamente para 2027, Marco Lisi recusa transformar a fotografia atual numa previsão sobre o vencedor.

Os dados mostram, na sua leitura, um RN com um eleitorado mais consolidado do que os seus concorrentes e uma competição completamente aberta no restante espaço político. A sondagem Ipsos de setembro sustenta essa fotografia atual: Marine Le Pen surge entre 33% e 35% nos diferentes cenários testados, enquanto as intenções de voto dos restantes potenciais candidatos variam substancialmente consoante a configuração apresentada.

Mas sete meses são muito tempo numa presidencial francesa. Lisi recorda 2017 como demonstração da rapidez com que uma campanha pode provocar uma recomposição política.

“O dado mais sólido hoje é a força do RN; o dado mais incerto é quem conseguirá organizar eleitoralmente tudo o que existe fora dele.”

As urnas de domingo não escolherão o sucessor de Emmanuel Macron e Marco Lisi insiste que seria um erro lê-las como uma sondagem presidencial antecipada.

Mas poderão responder a perguntas que nenhuma sondagem consegue responder: quem tem território, quem consegue construir alianças, quem sobrevive sem o seu líder e quem começa a entrar em espaços políticos que até há pouco tempo lhe estavam fechados.

França só escolherá o próximo Presidente em 2027.

A França política que fará essa escolha pode começar a revelar-se já este domingo.