A ameaça de Donald Trump de limitar temporariamente as exportações de gasóleo dos Estados Unidos está a aumentar a preocupação na Europa, numa altura em que o mercado mundial de combustíveis enfrenta uma forte pressão sobre a oferta. O comissário europeu da Energia, Dan Jørgensen, apelou a Washington para garantir o “livre fluxo” de gasóleo e admitiu que a União Europeia poderá enfrentar um dos invernos energéticos mais difíceis desde o início da guerra na Ucrânia.
Em declarações ao Financial Times, Jørgensen foi particularmente incisivo ao alertar que “este inverno poderá ser muito, muito mau” para a Europa e que poderá ser “o pior que tivemos desde 2022”. O aviso surge depois de Trump ter defendido a possibilidade de travar as exportações norte-americanas de gasóleo como forma de responder à subida sem precedentes dos preços nos Estados Unidos, onde o combustível chegou a registar um aumento anual de 80%. A eventual medida poderá reduzir ainda mais a oferta mundial de produtos refinados, numa altura em que os mercados já enfrentam perturbações provocadas pela redução da produção em infraestruturas afetadas pelos ataques no Médio Oriente e pelo bloqueio no estreito de Ormuz. A menor disponibilidade de gasóleo russo agrava igualmente a situação: as refinarias da Rússia reduziram a produção em cerca de 1,7 milhões de barris por dia face aos níveis anteriores à invasão da Ucrânia.
Os Estados Unidos são atualmente o maior fornecedor mundial de gasóleo, representando quase 20% de todo o comércio marítimo deste combustível. A indústria petrolífera norte-americana tem registado lucros recorde ao preencher parte do vazio deixado por outros fornecedores, sobretudo da OPEP, mas a subida dos preços está também a atingir diretamente os consumidores norte-americanos. Na quarta-feira, o preço médio do galão de gasóleo nos Estados Unidos atingiu 6,52 dólares, quase três dólares acima do valor registado um ano antes. A evolução está a pressionar a inflação e a aumentar a pressão política sobre Trump antes das eleições intercalares. Na Europa, entretanto, o preço médio do gasóleo atingiu esta semana 2,23 euros por litro, chegando aos 2,56 euros nos países mais caros, o que representa uma subida de 40% desde o início das hostilidades entre os Estados Unidos e o Irão. O receio europeu está sobretudo relacionado com o impacto nos preços, enquanto a possibilidade de uma situação generalizada de falta de combustível continua, para já, afastada pelos especialistas.
Os mercados começaram entretanto a reagir à ameaça norte-americana. Segundo a Wood Mackenzie, uma eventual limitação das exportações poderá levar as refinarias dos Estados Unidos a reduzir a atividade em 12% num único mês. No dia seguinte à divulgação da ameaça, os futuros do gasóleo caíram nos Estados Unidos, enquanto a gasolina subiu cerca de 3%. Em Londres, os contratos de gasóleo aumentaram o diferencial face ao gasóleo negociado no Nymex, a bolsa de Nova Iorque, numa evolução que indica uma transferência do risco para o mercado europeu. O alerta de Jørgensen surge depois de outros responsáveis europeus terem manifestado preocupações semelhantes. Na sexta-feira anterior, o Presidente francês, Emmanuel Macron, enviou uma carta à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, na qual avisava que a situação do abastecimento poderia deteriorar-se significativamente. O Eliseu estimou que, caso a situação no estreito de Ormuz não normalize a curto prazo, o mercado mundial poderá perder mais quatro milhões de barris por dia quando terminarem as reservas da Arábia Saudita. Em França, 14% das estações de serviço já registaram problemas de abastecimento de pelo menos um tipo de combustível.
Em Espanha, o Governo também está a preparar novas medidas para responder à subida dos preços. O ministro da Economia, Carlos Cuerpo, reuniu-se esta sexta-feira com representantes do setor logístico, no âmbito da ronda de contactos destinada a preparar um novo pacote de apoio que deverá ser levado ao Conselho de Ministros na próxima terça-feira. O anterior plano de contingência, que prevê uma ajuda de 20 cêntimos por litro de gasóleo e de cinco cêntimos por litro de gasolina, termina este mês. Os setores da indústria, dos transportes e da energia têm pressionado o Governo espanhol para avançar com um novo “plano de choque”. Apesar da discrição mantida pelo Executivo durante os contactos, fontes do Ministério da Economia indicaram que a principal preocupação neste momento está relacionada com o impacto nos preços e não com a segurança do abastecimento.
Nos Estados Unidos, a possibilidade de um embargo total às exportações de gasóleo parece, por agora, menos provável. O secretário da Energia, Chris Wright, colocou em causa a eficácia de uma proibição total para baixar os preços finais, embora, segundo a Reuters, se tenha mostrado favorável a uma solução que permita direcionar uma maior parte da produção de gasóleo para o mercado interno. Uma das hipóteses em discussão passa por uma “via pactuada”, através da qual as próprias refinarias reduziriam voluntariamente determinados volumes destinados à exportação. A indústria petrolífera norte-americana, contudo, opõe-se a qualquer embargo. Numa carta dirigida a Trump, cerca de 30 organizações do setor e várias câmaras de comércio federais pediram que sejam rejeitados os apelos para “proibir ou limitar as exportações” de gasóleo e de outros produtos petrolíferos. Os signatários defendem que uma redução das vendas ao exterior acabaria por diminuir a produção doméstica e aumentar os custos suportados pelas famílias, agricultores e transportadores norte-americanos, argumentando ainda que as refinarias dos Estados Unidos têm capacidade suficiente para abastecer o mercado interno e contribuir para estabilizar o mercado mundial de combustíveis.