Portugal só enviou 132 mil toneladas de petróleo das reservas estratégicas para França em 2025

Portugal transferiu para França 132 mil toneladas de petróleo bruto pertencentes à reserva estratégica nacional durante 2025, depois de a capacidade disponível para armazenar crude em território nacional ter ficado limitada.

Portugal só enviou 132 mil toneladas de petróleo das reservas estratégicas para França em 2025

Portugal transferiu para França 132 mil toneladas de petróleo bruto pertencentes à reserva estratégica nacional durante 2025, depois de a capacidade disponível para armazenar crude em território nacional ter ficado limitada. A operação ocorreu num contexto de redução da capacidade de armazenamento provocada pelo encerramento da refinaria de Matosinhos, em 2021, e ficou concluída no início de setembro do ano passado. O crude português encontra-se atualmente armazenado numa caverna salina em Manosque, em França, ao abrigo de um contrato de longa duração, com validade de dez anos. A transferência não significou a perda de propriedade das reservas por Portugal, que continuam a pertencer ao Estado e fazem parte dos stocks estratégicos destinados a responder a eventuais perturbações no abastecimento.

A informação consta do Relatório e Contas de 2025 da Entidade Nacional para o Setor Energético (ENSE), citado pela Renascença, que revela que a entidade só recebeu, a 16 de janeiro de 2025, a indicação de que o operador responsável pelo armazenamento em Sines já não conseguia manter a totalidade do crude pertencente à ENSE. Perante a necessidade de encontrar uma solução durante 2025, foram analisadas alternativas de armazenamento em Espanha, França, Alemanha e Países Baixos. A ENSE concluiu que, devido à urgência e à capacidade disponível no curto prazo, a instalação Géosel, em Manosque, era a única solução que permitia receber o crude português em tempo útil. O relatório indica que as 132 mil toneladas foram colocadas numa caverna salina e que o contrato de dez anos permitiu uma redução expressiva do custo de armazenamento por metro cúbico.

A operação ficou concluída no início de setembro de 2025 e teve um custo de cerca de 2,1 milhões de euros associado à movimentação logística das reservas para França. A transferência esteve relacionada com a perda de cerca de um terço da capacidade portuguesa de armazenamento de crude após o encerramento da refinaria de Matosinhos, que eliminou aproximadamente 600 mil metros cúbicos de capacidade. A pressão passou a concentrar-se na refinaria de Sines, atualmente a única em funcionamento no país, até ao ponto de o operador comunicar à ENSE que já não conseguia assegurar o armazenamento de todo o crude estatal sem correr o risco de défices conjunturais de existências. A solução francesa foi escolhida depois de avaliadas outras possibilidades, incluindo instalações na Alemanha que não tinham capacidade disponível. A Executive Digest noticiou que, no final de 2025, Portugal tinha cerca de 132,56 mil toneladas de crude armazenadas em Manosque e aproximadamente 405,26 mil toneladas em Sines, sendo que a ENSE considerou necessário recorrer a armazenamento noutro Estado-membro da União Europeia para garantir as reservas estratégicas.

A transferência voltou ao centro do debate esta semana depois de o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, ter pedido explicações ao Governo sobre a existência de reservas estratégicas portuguesas em França e admitido preocupação com a situação. O Governo confirmou a existência das 132 mil toneladas em território francês, mas assegurou que o crude continua a pertencer a Portugal e pode ser mobilizado em caso de necessidade. A ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho, anunciou entretanto que o Executivo pretende investir cerca de 60 milhões de euros para aumentar a capacidade de armazenamento em Portugal e voltar a concentrar no país as reservas atualmente mantidas no estrangeiro. O estudo solicitado à ENSE já identificou uma localização e estimou o investimento necessário, mas a construção da nova infraestrutura deverá demorar entre quatro e cinco anos.

Apesar de parte das reservas estar em França, a ENSE estabelece uma ordem de mobilização que dá prioridade ao crude armazenado em território nacional, sendo utilizadas posteriormente as reservas mantidas no estrangeiro caso seja necessário. A entidade considera que a distribuição das reservas por diferentes localizações também aumenta a resiliência do sistema, ao evitar a concentração de todo o crude estratégico num único ponto. A solução de armazenamento em França surge, entretanto, num período de maior pressão sobre os mercados internacionais de petróleo e produtos refinados, com a Europa a enfrentar dificuldades crescentes no abastecimento de combustíveis e níveis reduzidos de produtos refinados.