Uma eventual proibição das exportações de gasóleo pelos Estados Unidos não significaria necessariamente que os postos de abastecimento europeus ficassem sem combustível de um dia para o outro, mas poderia provocar uma nova subida dos preços num mercado que já enfrenta uma forte pressão.
A questão ganha particular importância para a União Europeia, que aumentou significativamente a dependência de gasóleo proveniente dos Estados Unidos depois de deixar de contar com os fornecimentos russos. Ao mesmo tempo, a guerra com o Irão perturbou os fluxos de combustível provenientes do Médio Oriente e a Rússia também restringiu as exportações de gasóleo.
Os preços europeus do gasóleo mais do que duplicaram desde o início do ano e, em meados de setembro, estavam cerca de 38% acima dos valores registados um ano antes. A situação é agravada pelo facto de as refinarias de todo o mundo estarem a funcionar perto da sua capacidade máxima.
Neste contexto, uma redução das exportações norte-americanas obrigaria os compradores europeus a procurar rapidamente alternativas num mercado mundial já muito apertado. A consequência mais imediata seria a pressão sobre os preços, com governos europeus a poderem enfrentar novas exigências para intervir no mercado, numa altura em que famílias, agricultores e transportadores já sentem os efeitos da crise energética.
Mas quão dependente está a Europa do gasóleo dos EUA? Que países seriam mais afetados? Existem fornecedores capazes de compensar a quebra? E durante quanto tempo poderiam as reservas europeias amortecer o impacto?
O que aconteceria à Europa se os EUA proibissem as exportações de gasóleo?
O principal efeito seria uma subida dos preços, e não necessariamente uma falta imediata de combustível.
Zameer Yusof, analista de energia da plataforma de informação de mercado Kpler, explicou que a Europa teria de aumentar as propostas para atrair cargas alternativas de gasóleo. Ao fazê-lo, estaria a competir pelo mesmo volume limitado de combustível com mercados do Mediterrâneo, da América Latina e da África Ocidental.
A eventual saída de uma parte importante do fornecimento norte-americano aconteceria, assim, num mercado mundial já particularmente apertado. Os compradores europeus teriam de disputar outras cargas disponíveis, o que poderia provocar uma subida significativa dos preços.
Uma redução de 30% dos fornecimentos provenientes dos Estados Unidos não significaria, contudo, que os preços europeus subissem necessariamente 30%. Segundo a análise da Kpler, a dimensão do impacto dependeria da forma como os compradores reagissem à necessidade de encontrar novos fornecedores e da intensidade da competição pelas cargas disponíveis.
Quanto depende a Europa do gasóleo dos Estados Unidos?
A dependência aumentou consideravelmente desde a perda dos fornecimentos russos.
Este ano, os Estados Unidos forneceram cerca de 180 mil barris de gasóleo por dia à União Europeia, num total de aproximadamente 580 mil barris diários de importações provenientes de fora do bloco. Isto significa que cerca de 32% do gasóleo importado pela UE de países terceiros teve origem nos EUA, contra 17% em 2025.
A concentração é ainda mais elevada no noroeste da Europa. Nesta região, os Estados Unidos representam cerca de 200 mil dos 350 mil barris por dia importados de fora da região, o equivalente a aproximadamente 57%. No ano passado, essa proporção era de 37%.
É esta concentração num fornecedor que torna uma eventual redução das exportações norte-americanas particularmente relevante para o mercado europeu.
Que países europeus estão mais expostos?
A exposição varia bastante entre os diferentes países europeus. A França surge como o país da União Europeia mais vulnerável a uma interrupção dos fornecimentos norte-americanos.
O Presidente francês, Emmanuel Macron, classificou na quinta-feira uma eventual proibição norte-americana das exportações de gasóleo como “catastrófica”.
A França importou este ano cerca de 63 mil barris de gasóleo por dia dos Estados Unidos, o equivalente a aproximadamente 36% das suas importações deste combustível. A dependência é agravada pelo encerramento das refinarias de Grandpuits e Donges, que deixou o país estruturalmente deficitário em gasóleo, segundo a Kpler.
Antes de a administração de Donald Trump avançar com a possibilidade de limitar as exportações norte-americanas, Macron tinha pedido à Comissão Europeia que aliviasse temporariamente as especificações aplicáveis aos combustíveis, permitindo às refinarias europeias produzir mais gasóleo e combustível para aviação. O Presidente francês tinha também defendido uma segunda libertação coordenada das reservas de petróleo de emergência.
Uma eventual proibição dos EUA reforçaria essa posição, uma vez que a Europa teria ainda mais necessidade de aumentar a produção das suas próprias refinarias. O problema é que essas instalações não conseguem acrescentar centenas de milhares de barris de produção de um momento para o outro.
E o Reino Unido?
O Reino Unido também apresenta uma exposição significativa ao gasóleo norte-americano.
O país importa cerca de 50 mil barris por dia dos Estados Unidos, correspondentes a aproximadamente 26% das suas importações de gasóleo.
A situação britânica foi agravada pelo encerramento da refinaria de Grangemouth, que aumentou a dependência do país em relação às importações.
Apesar disso, existe uma margem de segurança proporcionada pelas reservas. O gasóleo é um dos produtos petrolíferos mais armazenados na Europa, o que significa que os stocks existentes poderiam absorver pelo menos parte da perturbação inicial.
Essa almofada poderia evitar uma escassez imediata, mas não eliminaria a pressão sobre os preços caso uma eventual proibição norte-americana se prolongasse.
E Portugal, Espanha e Itália?
Os países do sul da Europa apresentam uma exposição menor aos fornecimentos norte-americanos, em parte devido à produção das suas próprias refinarias e ao acesso às estruturas de refinação do Mediterrâneo.
A Itália importa apenas cerca de 4% do seu gasóleo dos Estados Unidos, enquanto Espanha recebe aproximadamente 19% das suas importações deste combustível daquele país.
Portugal apresenta uma exposição muito reduzida aos fornecimentos norte-americanos.
No caso espanhol, as refinarias de Cartagena, Bilbau e Huelva constituem uma importante reserva de abastecimento interno, proporcionando uma proteção adicional perante uma eventual perturbação das importações dos Estados Unidos.
As reservas europeias conseguiriam evitar uma crise imediata?
Pelo menos parcialmente. O gasóleo encontra-se entre os produtos petrolíferos mais armazenados na Europa, pelo que os stocks existentes poderiam compensar uma parte da interrupção inicial dos fornecimentos norte-americanos.
Isso não significa, contudo, que as reservas resolvam o problema. Se uma eventual proibição se prolongasse, os países europeus continuariam a ter de encontrar novas fontes de abastecimento.
O verdadeiro desafio surgiria, portanto, depois de utilizadas as reservas disponíveis: encontrar volumes suficientes num mercado internacional onde a oferta já é limitada.
Existem outros países capazes de substituir o gasóleo dos EUA?
As alternativas são reduzidas. Segundo Zameer Yusof, da Kpler, a Índia é o único substituto considerado credível, mas a disponibilidade das exportações indianas também foi fortemente afetada.
As exportações de gasóleo da Índia caíram de cerca de 582 mil barris por dia no ano passado para 352 mil barris por dia este ano. No caso específico das vendas indianas para a Europa, a redução foi ainda mais acentuada: passaram de aproximadamente 163 mil barris por dia para cerca de 50 mil.
As refinarias indianas estão entretanto a encontrar melhores retornos nos mercados da África Oriental e do Sudeste Asiático. As questões relacionadas com a utilização de petróleo russo em algumas refinarias indianas também complicam o comércio com a Europa.
China e Coreia do Sul poderiam compensar a quebra?
Não de forma significativa. As exportações de gasóleo para a Europa provenientes da China e da Coreia do Sul são atualmente muito reduzidas. Este ano, a China enviou cerca de mil barris por dia para o mercado europeu e a Coreia do Sul aproximadamente dois mil.
A China enfrenta restrições da União Europeia relativamente a produtos fabricados a partir de petróleo russo. No caso da Coreia do Sul, as exportações estão condicionadas por contratos já estabelecidos nos mercados asiáticos, enquanto a disponibilidade global para exportação do país também diminuiu.
Assim, nem a China nem a Coreia do Sul parecem ter capacidade para preencher rapidamente o eventual vazio deixado pelos Estados Unidos.
A Europa teria capacidade para produzir mais gasóleo?
A Europa poderia tentar aumentar a produção das suas próprias refinarias, mas não conseguiria compensar centenas de milhares de barris adicionais de forma imediata.
É precisamente por isso que a proposta de Washington poderá reforçar os pedidos para aumentar a capacidade de refinação europeia e flexibilizar temporariamente determinadas regras relativas aos combustíveis.
A atual situação coloca também em causa a própria definição de segurança energética. A crise do gasóleo levanta questões sobre a necessidade de a União Europeia manter maiores reservas estratégicas de combustíveis refinados, reforçar a capacidade de refinação dentro do continente e criar mecanismos mais sólidos para coordenar o abastecimento em situações de emergência.
A possibilidade de uma segunda libertação das reservas estratégicas de petróleo estava também em discussão, embora a Agência Internacional de Energia não tivesse respondido, no momento da publicação, sobre se estava a ponderar essa medida.
A decisão da Comissão Europeia de discutir o problema através do seu grupo de coordenação do petróleo mostra, contudo, que Bruxelas está a tratar a questão como um problema de segurança energética e não apenas como uma disputa comercial.
Porque está Washington a ponderar limitar as exportações?
A proposta de limitar as exportações de gasóleo parece estar relacionada, em parte, com a pressão política interna nos Estados Unidos.
Os preços do gasóleo norte-americano aproximam-se dos sete dólares por galão, aumentando a pressão sobre a administração Trump para demonstrar que está a tomar medidas para responder ao custo de vida antes das eleições intercalares de novembro.
O secretário da Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, tem procurado obter o compromisso voluntário das refinarias para limitar as exportações como alternativa a uma proibição geral de 90 dias.
A medida está, portanto, a ser discutida entre a possibilidade de uma restrição voluntária e uma proibição mais abrangente das exportações.
Uma proibição poderia ter efeitos contrários aos pretendidos nos EUA?
Uma análise da Energy Policy Research Foundation (EPRF) defende que uma proibição das exportações de gasóleo dos Estados Unidos poderia acabar por produzir o efeito contrário ao pretendido.
Segundo o organismo, as refinarias norte-americanas já estão a funcionar praticamente à capacidade máxima e não conseguiriam aumentar significativamente a produção sem novos investimentos e capacidade adicional.
Se deixassem de poder exportar, as refinarias da Costa do Golfo poderiam acumular combustível nos seus depósitos e ver as suas margens diminuir. Perante essa situação, algumas poderiam reduzir a produção para realizar trabalhos de manutenção que foram adiados durante a crise.
A EPRF salienta ainda que gasolina, gasóleo e combustível para aviação são produzidos em conjunto. Por isso, uma redução da produção de gasóleo poderia também diminuir a produção dos restantes combustíveis.
“Cortadas dos mercados de exportação, as refinarias da Costa do Golfo veriam os stocks aumentar e as margens cair, e muitas reduziriam a produção para recuperar a manutenção adiada durante a crise. Como a gasolina e o gasóleo são produzidos em conjunto, o resultado seria menos gasolina, gasóleo e combustível para aviação e preços mais elevados nos postos”, concluiu a análise.