Portugal sob pressão dos combustíveis: protestos nas ruas, ameaças de paralisação e serviços em risco

A escalada dos preços dos combustíveis está a deixar de ser apenas um problema para quem chega à bomba de abastecimento.

Portugal sob pressão dos combustíveis: protestos nas ruas, ameaças de paralisação e serviços em risco

A escalada dos preços dos combustíveis está a deixar de ser apenas um problema para quem chega à bomba de abastecimento. Em poucos dias, a contestação chegou às estradas, empresas começaram a admitir alterações à atividade e surgiram ameaças de paralisação, enquanto o Governo insiste na necessidade de reduzir o consumo e concentra os apoios nos setores que considera mais vulneráveis, repetindo cenários já antes vistos.

Esta sexta-feira tornou particularmente visível essa pressão. Houve protestos na Ponte 25 de Abril e uma marcha lenta de centenas de camiões, enquanto as empresas de reboques ameaçaram parar durante três dias em outubro e as distribuidoras farmacêuticas admitiram reduzir a frequência das entregas de medicamentos caso os atuais custos se mantenham.

Tudo isto acontece precisamente quando se aproxima algum alívio para os automobilistas. As previsões recolhidas pela ‘Executive Digest’ apontam para uma descida de cerca de seis cêntimos por litro no gasóleo e dois cêntimos na gasolina a partir de segunda-feira, naquela que deverá ser a primeira redução simultânea dos dois combustíveis em sete semanas.

O problema é que esse alívio pode ser insuficiente para alterar o cenário de fundo. Os alertas que chegam do setor petrolífero apontam para uma pressão prolongada sobre os combustíveis, com a escassez internacional de gasóleo a poder estender-se durante grande parte de 2027.

Gasóleo subiu 19,2 cêntimos em pouco mais de três semanas

A dimensão da contestação é explicada pela escalada acumulada nas últimas semanas.

A 23 de setembro, o preço médio do gasóleo simples situava-se nos 2,221 euros por litro, segundo os dados da Direção-Geral de Energia e Geologia. No final de agosto estava nos 2,029 euros. Em pouco mais de três semanas, a subida foi, portanto, de 19,2 cêntimos por litro.

Na gasolina simples 95, o preço passou de 2,013 euros no final de agosto para 2,115 euros a 23 de setembro, um agravamento de 10,2 cêntimos.

O impacto torna-se mais evidente quando se olha para um abastecimento completo. Um depósito de 60 litros de gasóleo que custava 121,74 euros no final de agosto passou a representar 133,26 euros, mais 11,52 euros. Na gasolina, o mesmo depósito passou de 120,78 para 126,90 euros.

A descida prevista para segunda-feira deverá recuperar apenas parte deste agravamento. Uma redução de seis cêntimos no gasóleo representa uma poupança de 3,60 euros num depósito de 60 litros, enquanto dois cêntimos na gasolina correspondem a 1,20 euros.

Centenas de camiões saíram à estrada

A pressão já chegou diretamente a atividades fortemente dependentes do gasóleo.

Esta sexta-feira, mais de uma centena de empresas ligadas às terraplanagens, movimentação de terras, extração de inertes e transportes participaram numa ação de protesto que previa mobilizar mais de 400 pesados entre Paredes e Coimbra.

A marcha lenta passou pela A42, A41 e A1. Os empresários argumentam que foram excluídos dos apoios concedidos a outros setores e que o combustível representa uma parcela particularmente elevada dos seus custos.

Em algumas empresas, o gasóleo pode representar perto de 70% do preço final cobrado aos clientes. O problema agrava-se nos contratos celebrados antes da escalada dos combustíveis, nos quais os operadores dizem não conseguir repercutir totalmente o aumento dos encargos.

Segundo os promotores do protesto, o gasóleo passou de 1,59 euros por litro em 27 de fevereiro para valores próximos de 2,22 euros. Entre as principais reivindicações está a criação de descontos profissionais semelhantes aos aplicados aos transportes de passageiros e mercadorias.

Ponte 25 de Abril voltou a ser palco de contestação

A contestação chegou também à Ponte 25 de Abril, onde automobilistas participaram num buzinão e numa marcha lenta promovidos pela Associação de Utentes da Ponte 25 de Abril.

O protesto prolongou-se durante quase uma hora e teve como alvo não apenas os preços dos combustíveis, mas também o aumento do custo de vida.

A associação reclama a suspensão das portagens, o regresso do teletrabalho, IVA zero nos alimentos e medicamentos e o fim do IVA e do ISP sobre os combustíveis. Exige ainda a demissão da ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho.

O presidente da associação, Aristides Teixeira, recuperou mesmo a memória dos protestos de 1994, quando o aumento de 50% das portagens da Ponte 25 de Abril desencadeou um bloqueio da travessia e confrontos com as forças policiais.

“Se o Governo não aprendeu nada com a queda do Governo que nós provocámos em 1994, a verdade é que, estes anos depois, o Governo é capaz de estar à beira de ter de cair”, afirmou Aristides Teixeira à Renascença.

Reboques ameaçam paralisação total durante três dias

A contestação poderá prolongar-se por outubro. As empresas de reboques deram ao Governo até dia 8 para responder às medidas reclamadas pelo setor.

Caso não exista uma resposta concreta, a Associação Nacional do Ramo Automóvel (ARAN) ameaça avançar com uma paralisação total das empresas e frotas nos dias 10, 11 e 12 de outubro.

Segundo o presidente da ARAN, Rodrigo Ferreira da Silva, os custos com combustível aumentaram 40%, enquanto os preços dos serviços prestados pelas empresas de reboques subiram menos de 5%, em média.

A associação reclama também um apoio extraordinário que diz ter sido prometido pelo Governo em abril e que ainda não terá sido pago. Pretende que tenha efeitos retroativos desde a última semana de fevereiro e defende a criação de um mecanismo de indexação que permita atualizar os preços dos serviços quando exista uma variação dos custos superior a 5%.

A ideia é que o mecanismo funcione nos dois sentidos: os preços subiriam perante um agravamento dos custos e desceriam quando esses encargos recuassem.

Combustíveis podem mexer até nas entregas de medicamentos

A pressão está também a chegar a um setor particularmente sensível: a distribuição farmacêutica.

A Associação de Distribuidores Farmacêuticos (ADIFA) admite que as empresas possam reduzir a frequência das entregas às farmácias e até suspender algumas operações ao fim de semana se a pressão dos combustíveis persistir.

Caso os preços permaneçam nos níveis atuais, a associação calcula um custo adicional de aproximadamente quatro milhões de euros por ano.

As seis empresas associadas operam 597 veículos, percorrem cerca de 47 milhões de quilómetros anualmente e distribuem 335 milhões de unidades às farmácias portuguesas. Em média, percorrem todos os dias uma distância equivalente a aproximadamente cinco voltas ao mundo.

A ADIFA argumenta que, por operar num mercado regulado, o setor não consegue simplesmente repercutir o aumento dos custos ao longo da cadeia. Em 2024, a distribuição farmacêutica de serviço completo apresentou uma margem EBITDA de 1,9% e uma margem líquida de 0,9%.

Apesar de admitir menos entregas, a associação considera que uma reorganização das operações ao fim de semana não deverá comprometer o abastecimento das farmácias, desde que exista planeamento adequado. Medicamentos urgentes e essenciais continuariam a ser assegurados através de circuitos específicos e entregas prioritárias.

A associação quer que o transporte de medicamentos passe a ter acesso ao gasóleo profissional, reclama uma redução especial das portagens e benefícios fiscais ao nível do ISP, IVA e IUC. Se a crise se prolongar, pretende ainda que a distribuição farmacêutica seja enquadrada no acesso à Reserva Estratégica de Produtos Energéticos.

Governo pede aos portugueses para consumirem menos

Do lado do Executivo, a resposta tem passado por defender apoios direcionados e apelar à redução do consumo.

A ministra do Ambiente e Energia revelou que o consumo de gasóleo, gasolina e combustível para aviação aumentou entre 4% e 6% em relação aos mesmos meses do ano passado.

Maria da Graça Carvalho defendeu uma “gestão pessoal” do consumo por parte de cidadãos, empresas e instituições e considerou que a energia e os combustíveis devem ser utilizados apenas quando necessário. A governante apontou também os transportes públicos como alternativa para quem tenha possibilidade de os utilizar.

A ministra rejeitou a lógica de um apoio generalizado, defendendo que os recursos públicos devem ser dirigidos aos setores vulneráveis e às pessoas que dependem diariamente do automóvel.

Dias depois, o ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, deixou uma mensagem semelhante. O governante aconselhou famílias e empresas a consumirem menos energia sempre que possam fazê-lo, argumentando que uma redução da procura ajuda a aliviar os preços.

“Quanto menos combustíveis forem consumidos, mais isso facilita o abaixamento dos preços”, explicou.

Até agora, o Governo não avançou com limitações obrigatórias ao consumo.

Problema pode prolongar-se durante grande parte de 2027

A pressão que está agora a sentir-se em Portugal poderá não desaparecer rapidamente, mesmo que o petróleo recue nos mercados internacionais.

A Agência Internacional de Energia prevê que a escassez de gasóleo se prolongue até ao final deste ano e durante grande parte de 2027. O problema está a deslocar-se do petróleo bruto para a disponibilidade dos produtos já refinados, num mercado condicionado por stocks reduzidos e por limitações na capacidade de refinação.

Nos Estados Unidos, os stocks de produtos refinados deverão cair para menos de 100 milhões de barris e permanecer este ano e no próximo abaixo do mínimo dos últimos cinco anos. Na Europa, os níveis armazenados nos portos de Amesterdão, Roterdão e Antuérpia encontram-se 16% abaixo da média.

Em Portugal, tanto o Governo como a Galp afastam, para já, um cenário de escassez junto dos consumidores.

Mas as grandes petrolíferas estão a preparar-se para um período prolongado de pressão. João Marques da Silva, co-presidente executivo da Galp, admite que os preços elevados dos combustíveis podem “perdurar”, mesmo que o barril de petróleo regresse a valores mais normalizados.

A dificuldade, segundo o responsável, está na disponibilidade dos produtos finais. A forte procura de gasóleo coincide com uma oferta limitada, afetada pela guerra no Médio Oriente, pelos danos nas refinarias russas e pela reduzida capacidade de refinação europeia.

Questionado sobre a possibilidade de preços acima dos dois euros por litro se transformarem num “novo normal”, o responsável da Galp respondeu que a situação “vai perdurar”.

A TotalEnergies também alerta para riscos acrescidos com a chegada do inverno. O aumento sazonal do consumo poderá intensificar a pressão sobre os produtos refinados, levando a petrolífera a aconselhar vários governos a prepararem-se para a possibilidade de recorrer às reservas estratégicas.

A Shell, por sua vez, prepara-se para aquilo que o seu presidente executivo, Wael Sawan, admite poder tornar-se num “desafio de vários meses”. A empresa prevê uma redução da produção entre 5% e 7% este ano devido ao conflito no Médio Oriente.

Os alertas convergem, assim, num problema que vai além da existência de petróleo bruto: há petróleo disponível, mas os stocks de gasolina, gasóleo e outros produtos refinados estão baixos e a capacidade para os produzir permanece limitada.

Segunda-feira traz alívio, mas não apaga a escalada

É neste contexto de protestos, ameaças de paralisação, pressão crescente das empresas e avisos de que a crise poderá prolongar-se que gasóleo e gasolina deverão finalmente voltar a descer em simultâneo.

Desde o início de 2026 e até 21 de setembro, o gasóleo ficou mais caro em 25 das 37 variações semanais registadas pela DGEG e desceu apenas 12 vezes. Na gasolina 95 houve igualmente 25 subidas, contra 11 descidas e uma semana sem alterações.

A última vez que os dois combustíveis tinham baixado simultaneamente tinha sido na atualização de 10 de agosto. Se as previsões para segunda-feira se confirmarem, serão necessárias sete semanas para voltar a acontecer.

A redução prevista dará algum alívio imediato a famílias e empresas, mas recuperará apenas uma fração do agravamento acumulado desde o final de agosto. E os avisos vindos do setor petrolífero indicam que a questão poderá ser bastante mais prolongada.

Os acontecimentos dos últimos dias mostram, entretanto, que a subida dos combustíveis já ultrapassou a fatura individual de quem abastece. Está a aumentar custos empresariais, a provocar ameaças de redução de serviços e paralisações e a levar diferentes setores e automobilistas para a rua — num momento em que os sinais internacionais apontam para uma pressão sobre o mercado que poderá acompanhar Portugal durante vários meses.