UE lança ofensiva diplomática para travar proibição de exportações de gasóleo de Trump e evitar ‘choque’ no mercado

A União Europeia está a pressionar diplomaticamente a administração de Donald Trump para impedir a entrada em vigor de uma proibição de 90 dias às exportações de gasóleo dos Estados Unidos.

UE lança ofensiva diplomática para travar proibição de exportações de gasóleo de Trump e evitar ‘choque’ no mercado

A União Europeia está a pressionar diplomaticamente a administração de Donald Trump para impedir a entrada em vigor de uma proibição de 90 dias às exportações de gasóleo dos Estados Unidos, alertando que a medida poderá provocar um impacto significativo nos mercados europeus e mundiais de energia.

O alerta foi deixado esta quinta-feira pela Comissão Europeia, que confirmou a existência de contactos de alto nível com a administração norte-americana para tentar evitar a aplicação da medida.

“O União Europeia vê com preocupação a informação de que os Estados Unidos planeiam proibir as exportações de gasóleo, incluindo para a União Europeia”, afirmou Olof Gill, porta-voz da Comissão Europeia, citado em declarações ao jornal Politico. “Qualquer perturbação correria o risco de afetar negativamente ambas as partes”, acrescentou.

Segundo Gill, estão a decorrer “contactos de alto nível entre a União Europeia e a administração dos EUA”. Bruxelas espera que os “parceiros próximos se consultem antes de adotarem medidas que afetem mercados partilhados”.

O porta-voz recusou revelar pormenores sobre o conteúdo das conversações diplomáticas, mas indicou que existem também nos Estados Unidos vozes contrárias à proposta. “Há vozes fortes — também desse lado — que consideram que qualquer proibição desta natureza seria, de facto, uma péssima ideia”, afirmou.

Europa depende cada vez mais do gasóleo norte-americano
A possível suspensão das exportações surge num momento particularmente sensível para o mercado europeu. Nos últimos meses, a União Europeia aumentou as importações de gasóleo proveniente dos Estados Unidos para compensar a perda de fornecimentos associados ao conflito no Médio Oriente.

Atualmente, mais de metade do gasóleo importado pela União Europeia tem origem nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, os preços e a disponibilidade do combustível têm sido afetados pelos ataques contra refinarias de petróleo russas.

Os Estados Unidos são atualmente o maior exportador mundial de gasóleo e, segundo a ClearView Energy, têm estabelecido novos recordes de exportação ao longo deste ano.

A retirada dessa oferta dos mercados internacionais poderá, por isso, ter consequências muito além do mercado norte-americano. Um responsável do setor, que acompanha de perto a evolução do mercado e falou sob anonimato devido à sensibilidade do tema, alertou que, perante a situação já “precária” na Europa, quaisquer novas restrições aos combustíveis disponíveis para a União Europeia poderiam rapidamente assumir proporções muito sérias.

Proibição de 90 dias enfrenta oposição nos EUA
O plano da administração norte-americana prevê a suspensão das exportações de gasóleo durante 90 dias, numa altura em que aumentam as preocupações internas nos Estados Unidos com a subida dos preços dos combustíveis.

A proposta está, contudo, a enfrentar uma forte oposição dentro do próprio setor petrolífero norte-americano. A indústria energética dos EUA alerta que a medida poderá reduzir significativamente a oferta disponível nos mercados mundiais.

Também o secretário da Energia da administração Trump, Chris Wright, se opõe à proibição.

Bruxelas acompanha mercados e segurança do abastecimento
A Comissão Europeia afirma estar a acompanhar de perto a evolução dos mercados e a segurança do abastecimento, em coordenação com os Estados-membros.

Anna-Kaisa Itkonen, porta-voz da Comissão Europeia, afirmou que Bruxelas está a “monitorizar os mercados e a segurança do abastecimento muito, muito de perto, juntamente com os nossos Estados-membros”.

A responsável destacou ainda a importância dos Estados Unidos enquanto fornecedor de energia para a União Europeia, classificando o bloco como um “grande importador de gasóleo dos EUA” e um “mercado sólido e atrativo para os Estados Unidos”.

A dependência europeia dos combustíveis norte-americanos aumentou no âmbito da estratégia de diversificação energética adotada desde 2022. Itkonen explicou que os Estados Unidos são um importante fornecedor de gasóleo e de gás natural liquefeito à União Europeia.

“Não é segredo, naturalmente, que os Estados Unidos são um grande fornecedor para nós, tanto de gasóleo como de gás natural liquefeito. Isto faz claramente parte da nossa estratégia de diversificação desde 2022”, afirmou.

A responsável ressalvou, contudo, que uma parte significativa do aumento das importações resulta de contratos celebrados diretamente entre empresas privadas, pelo que a Comissão Europeia não dispõe necessariamente de uma discriminação completa desses acordos.

UE mantém compromisso com energia norte-americana
Apesar da intenção de aumentar a utilização de energias renováveis e reduzir progressivamente a dependência dos combustíveis fósseis, a União Europeia mantém um compromisso de investimento significativo em produtos energéticos norte-americanos.

No âmbito do acordo comercial entre a União Europeia e os Estados Unidos, o bloco comprometeu-se a investir 750 mil milhões de dólares em produtos energéticos norte-americanos até 2028.

Questionada sobre se uma eventual proibição das exportações de gasóleo poderia levar Bruxelas a reconsiderar esse compromisso ou a atual tendência de aumento das importações de combustíveis dos EUA, Itkonen afirmou que o comércio energético entre as duas partes é “mutuamente benéfico”.

Ao mesmo tempo, destacou o compromisso de longo prazo da União Europeia com a redução da utilização de combustíveis fósseis.

A eventual proibição norte-americana surge, assim, num contexto de forte interdependência energética entre os dois lados do Atlântico, com Bruxelas a procurar evitar uma medida que considera suscetível de provocar perturbações num mercado de que a Europa depende cada vez mais.